Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

gorda
por Fabio Lattes

Isso mesmo, você leu o título. Ela é gordinha. E ela é uma delícia.

Ao contrário do estigma que as mulheres rotulam, não é só de bundas e peitões dignos de uma assistente de palco que vive o desejo e a libido masculina. Ali, entre as fantasias de loiras curvilíneas e morenas de corpos que tocam bossa nova, existe uma mulher que enche a cama, que tem carne para apertar, que tem um recheio digno de ser esmagado entre rodelas de chocolate e ser empacotado para vender como Negresco.

A gordelícia. Prima da mulher que dá um caldo, mas com uma pitada de pimenta e por que não - um tenro pedacinho de bacon.

Uma gordelícia não é simplesmente uma mulher com alguns quilinhos a mais. Nelas, as famosas “alças do amor” abrem portas para um sexo tão fogoso que assa carnes e peixes na churrasqueira. Melhor que isso, elas tem a explosiva combinação entre horny e carinhosas. E homens percebem - e valorizam - essa charmosa dinamite.

A história prova seu lugar de destaque. Expressada na arte e na música, o gosto pelas gordelícias inspira muitos.

Bon Scott, falecido vocalista do ACDC, após uma noite de tórrido romance escreveu “Whole Lotta Rosie”, uma verdadeira ode Rock N’ Roll às gordelícias. O colombiano Fernando Botero pincelou seu lugar entre os grandes pintando e esculpindo gordelícias com as mãos que com toda certeza já contornaram as mais belas formas. Até num plano municipal, a bela cidade de Americana, no interior paulista, decidiu receber seus visitantes com um portal que é uma clara homenagem a este belo estipe mulheril.

Deixemos para lá o debate sobre o padrão de beleza atual, que cultua um corpo que substituí as delícias da boa mesa por alface, e se der, uns cubinhos de torrada. Entremos no nosso DeLorean e voltemos muitos anos no passado.

Os quadros não mentem: antigamente as gordelícias eram o padrão de beleza. Comer bem e bastante era para nobres, para os inquilinos originais do Castelo de Caras. Quem morava mal e longe era magro, e até esculpido pelo árduo trabalho no campo. Provável dono de uma barriga tanquinho que roncava com frequência.

Hoje, num mundo que (pelo menos nas grandes cidades) todos tem acesso a pelo menos um prato de comida, o que é bonito é a falta de peso. Comer alimentos orgânicos, lanches de pão integral com queijo branco, sucos de 3 frutas com uma pitada noz moscada, que você sabe, é cheio de vitamina A.

Segue a mesma lógica de antigamente, mas de forma inversa. Os ricos e famosos que renovam seus votos de amor no Castelo investem para contratar um personal trainer e uma equipe de nutricionistas para ficar bem na foto.

Mas aí, quando o mundo conspira para incitar-nos a procurar o que está estampado nas revistas ou dançando ao fundo do Programa do Faustão, quando a marca do meu desodorante lança uma campanha pela “real beleza”, lá vem elas, as gordelícias, e acabam com toda necessidade de argumentação.

A atração por gordelícias está na sua autencidade, no uso do inconfundível charme feminino a seu favor, em mostrar que uma mulher gostosa vai muito além de um padrão de medidas para bundas, coxas e peitos.

Elas são provas vivas e levemente rechonchudas de como o charme feminino permite a adição de “delícias” para todo tipo físico.

Afinal, ela é uma mulher. E é uma delícia.


segredo
por João Guilherme Pires

Ali, naquele aninhamento quiçá maternal que só sua chez long poderia oferecer, alternando manifestações intestinais e bitoquinhas em seu scotch 12 anos enquanto folheava seu recém terminado livro, O Segredo, Glauber pensou:

- Taí, sou feliz.

Tinha razão. Basicamente por que tinha também o cargo de vice-presidente executivo de uma multinacional de telefonia, uma esposa maravilhosa, tão gostosa quanto compreensiva, uma família que o amava, amigos que faziam questão de sua presença e, o mais importante, dizia a si mesmo num raro ímpeto pouco materialista: uma saúde de ferro. E se ele tinha tudo isso sem nem conhecer O Segredo, ah, daqui pra frente ninguém o segurava. Rumo ao topo. Se não estivesse ma capa da Forbes até o final do ano, ao menos a Vejinha São Paulo era garantida.

- Mentalizar coisas boas pra mim, atrai coisas boas pra mim. Óbvio. Como nunca pensei nisso?

Estava tão entusiasmado com a epifania que decidiu presentear cada funcionário da empresa com um exemplar.

- Pessoal, isso vai mudar nossas vidas. Logo seremos lideres do mercado!

Aplausos, assobios, bolinhas de guardanapo. De fato a empresa cresceu nos meses seguintes, o que despertou o interesse de uma das maiores holdings de comunicação do mundo.
E como manda a tradição, depois de toda proposta irrecusável vem uma outra proposta irrecusável: a da dispensa, que coube a Glauber comunicar aos seus:

- Carlos, não é nada pessoal. Estou plenamente satisfeito com o seu trabalho, mas são ordens superiores.

- Brigitte, você é extremamente competente, tem postura, tem iniciativa, tenho certeza que em breve você já estará recolocada no mercado.

- Meirelles, depois de 35 anos, chegou a hora. Sinto muito por ter que dar essa notícia, você sabe como são as coisas…

O peso de ser o arauto do desligamento logo deu lugar à alegria de um aumento substancial na conta corrente. E foi exatamente aí que a vida de Glauber começou a mudar. Primeiro foi sua esposa.

- Quero que você saia de casa.
- Como assim Flavinha?
- Quero o divórcio…
- Mas…
- Você não percebeu? Não tem mais encanto, amor, sei lá, tô confusa.
- Eu amo você Flavinha!
- Glauber….eu conheci alguém…estou apaixonada por outro…

Aquilo soou, well, como uma loira gostosa dando um pé na bunda, claro. Mas o mundo de Glauber tinha caído. E bem fundo. Auto-estima à parte, procurou focar no trabalho, nos amigos, na família, sempre com bons pensamentos, vibrações positivas, planícies verdejantes, aquela coisa. E estava quase se recuperando quando descobriu que havia sido substituído no time do pessoal da faculdade.

- Porra Elias, que merda é essa?
- Ô Glauber, seguinte, precisamos ganhar o campeonato do clube esse ano, e você já não tá rendendo…
- Fui artilheiro ano passado!
- Tô ligado, mas tem neguinho de bode contigo, falando que você é traíra, que tava de rolo com a namorada do Benê.
- Ta maluco rapá? Quem inventou isso?
- Galera toda tá sabendo, tá ligado? Acho melhor você sumir por uns tempos, sei lá.

As ligações não atendidas que vieram em seguida também não ajudaram muito. Tampouco as brigas que começaram em seu núcleo familiar, após ter voltado a morar com os pais:

- Glauber, posso saber o que é isso?
- Mãe, você mexeu nas minhas coisas?
- Exijo uma explicação já!
- Mãe, tenho 38 anos, sou dono do meu nariz…
- Ah, então isso é motivo pra fumar maconha?
- Pago minhas contas, sou responsável porra!
- Quando seu pai souber, vai te expulsar de casa Glauber César!

Realmente expulsou. E quando ele achava que não tinha mais nada a perder, isso mesmo, leitor, você adivinhou:

- Glauber, você sabe que estamos reestruturando a empresa. E neste novo organograma, você não está incluído.
- Qué isso Olavo…
- Não sou eu que decido Carlos…

Sem emprego, sem esposa, sem amigos, caralho: assim era difícil pensar positivamente. E olha que ele estava se esforçando. Mesmo. Respirava fundo, mentalizava beija-flores, acreditava que o Universo conspiraria a seu favor.

Num domingo introspectivo, caminhava pelo Ibirapuera quando reparou no pessoal da faculdade disputando uma peleja. Foi com grande surpresa que reconheceu o rapaz da camisa 9, antigamente sua. Era Carlos, aquele assistente demitido há alguns meses. E que agora, após cobrar uma falta certeira, corria em direção ao cara grisalho que, pera aí, era Olavo. Comemoraram, abraçaram-se e ouviram as palmas e os assobios de uma loira deliciosa que gritava ao lado do campo o nome do autor do gol. Era Flavia.

Acreditando estar num Dali, tamanha a surrealidade da cena, não resistiu e, ao fim da partida, foi cumprimentar seu antigo colega-de-firma.

- Grande Carlão!
- Ô Glaubão, beleza rapaz?
- Vamos indo, vamos indo. E você?
- Tô ótimo cara, Nunca estive melhor. E posso falar: aquele livro que você me deu me ajudou pra caralho!


nofx2
por João Vicente

O NOFX, banda surgida em 1983, marca a cena do chamado punk rock californiano, uma localização geográfica que se tornou identidade musical. Aliás, o que possui algo de questionável, pois ter em comum o estado de origem e a guitarra distorcida, a meu ver, não garante semelhança na música criada – confesso que não sou capaz de enxergar homogeneidade na mesma cena grunge que trouxe, por exemplo, Nirvana e Soundgarden.

É curioso como, mesmo com quase 30 anos de existência e diversos caminhos tomados, é possível identificar o NOFX como participante do mesmo grupo estratégico – termo convenientemente utilizado por Philip Kotler para definir empresas que oferecem os mesmos serviços aos mesmos consumidores – de bandas como Green Day, Samiam e Rancid.

Em 4 de março, quinta-feira última, no Santana Hall, tive a feliz oportunidade de testemunhar a apresentação paulistana da banda, nesta terceira passagem por terras brasileiras, e uma conversa com um grande amigo me fez pensar sobre a cena musical que envolve o NOFX.

Já ouvi bandas e movimentos musicais serem considerados ultrapassados, “tão dez anos atrás”. E entendo que isso de fato aconteça com lançamentos enlatados, produtos culturais fabricados por experts da indústria, que manufaturam artistas como sopas Campbell de Andy Warhol. Porém, acredito que mesmo tais latas tem seu “momento” definido pelo olhar de cada um. Foi no mesmo período em que um garoto andava de skate e pisava em um Vans que ele ouvia NOFX. Porém, o caminho trilhado pela banda e os ouvidos de sua audiência em nada, necessariamente, confluem. Não disse Umberto Eco que “a arte continua no espectador”?

Tal como nos múltiplos personagens de O Lobo da Estepe de Hermann Hesse, há diversos NOFX na mesma apresentação. Há a banda que entoa um sarcástico hino – e, não por isso, menos verdadeiro – a favor das substâncias ilícitas em Drugs Are Good. Canção que foi acompanhada aos berros pela plateia, tal como Eat The Meek. Uma faceta díspar, em que o vocalista Fat Mike é acompanhado por alguns milhares de jovens que esbravejam “por que permanecer em um lugar onde não pertencem”. Um tom ideologicamente libertário; irresistível e esperançoso, convenhamos. E há também a banda que, como diz a letra de My Orphan Year, “é sincera pela primeira vez”, ao rever as últimas ocasiões do mesmo Fat Mike ao lado de seus pais.

Poderia uma banda tão plural, que caminha com tranquilidade da libertação pessoal ao escracho, ser tão simplesmente colocada em um mesmo pacote com as bandas citadas? Ser caracterizada como pertencente a uma determinada década? Com certeza a resposta é positiva. Afinal, as coisas só existem segundo o olhar de quem as vê. Tal como este depoimento. Não passa de um olhar.

* Este texto também foi publicado no blog do Showlivre.com. Acesse clicando aqui


senha2
por Bruno Brandão

Leninha nunca escondeu de ninguém, principalmente de seus dois filhos e marido. E, precavida como sempre foi, repetia toda vez que achasse necessário:

- Meninos, se precisarem de alguma coisa, todas as minhas senhas sempre serão as mesmas: Tadeu77.

Religiosamente, a mulher terminava de alertá-los e roubava um beijo no rosto de seu esposo Tadeu, com quem se casou no dezembro de 1977.

Realmente, a senha foi útil por algumas vezes. Desde os momentos em que os meninos precisaram sacar algum dinheiro num carnaval um pouco mais exagerado até naqueles dias em que, com um computador quebrado, eles precisam aliviar a tensão numa punhetinha inadiável e inevitável no notebook da mãe.

Mas o fato não passou despercebido e trouxe chateações para a família, especialmente para o atencioso marido. Numa tarde de sábado, Leninha precisava acessar seu webmail do trabalho e mandar aquele relatório que ficou atrasado na última sexta-feira de escritório.

Por azar dela e de Tadeu, o computador de Leninha estava naqueles dias e a moça evitava, a qualquer custo, acessar o dos meninos.

- Sabe como é que são estes rapazes. Ligo o computador e dou de cara com uma loira siliconada de quatro no papel de parede.

Dessa forma, o último e preferido caminho era o PC moribundo do homem da sua vida. Leninha foi até o escritório ao lado da escada e ligou o computador já ansiosa pela tela de senha. Quando ela apareceu a eterna apaixonada não pensou meia vez:

Leninha77.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara de susto.

Tomatinha77. O apelido da época de namoro.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara fechada e de susto.

Leninhaamoreterno.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara fechada, de susto e desapontamento.

Ela já se mostrava impaciente e por que não, um pouco decepcionada. Fez, imediatamente, as mais variadas e óbvias tentativas:

Caribe. A viagem de lua de mel.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Paixaoafricana. O primeiro motel.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Fusca68. O carro em que se beijaram.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Leopardoemoverdose. A posição preferida.
Senha incorreta. Tenta outra vez.

Leninha já chorava. Tratava-se de algo simples e pequeno é verdade, que não necessitava de tanto alarde. Mas para a mulher, era a prova de amor que faltava do marido, a cereja no bolo da paixão eterna, a demonstração mais leviana e importante do carinho de Tadeu.

E tudo foi por água abaixo quando, já desesperada, ela digitou:

Lontra. O nome do vira-lata da família.
O Windows abriu.

Leninha empurrou o teclado, desligou o monitor e desabou sobre a mesa.
O motivo do choro descontrolado era Lontra, o cachorro que se coçava 23 horas por dia, que destruía os seus sapatos e desfiava suas meias. Ele estava lá: a substituindo num cantinho especial das memórias do ex-homem da sua vida.

A desapontada mulher saiu do escritório e subiu as escadas num choro que de tão forte, era contagiante. Chamou a atenção dos filhos e abriu a porta do quarto: a cena do crime era inacreditável.

Lontra jazia sobre a cama, com pedaços de papel higiênico na boca e Tadeu, de conchinha, cobria o cachorro com um carinho delicado e ao mesmo tempo insinuante. Ela gritou e acordou os dois: o cão e o marido, ambos com cara de susto perguntaram o que tinha acontecido. Ele, pela fala e o mascote da casa, com uma coçada atrás da orelha e os olhos fixos em sua dona.

- Tadeu, tire esse cachorro da minha cama.
- Mas ele sempre subiu aqui.
- A partir de hoje, ou ele ou eu.
- Amor, por que isso?
- Ou ele ou eu Tadeu.

E assim se fez. O relacionamento entre marido e mulher ficou insustentável após a descoberta da senha indesejada e por conta disso, Lontra foi morar com Luquinhas, filho mais velho do casal que acabara de passar em engenharia numa faculdade do interior.

Tadeu nunca soube a razão da ira da mulher e desconhece a origem do ódio repentino de Leninha pelo cachorro tão querido por todos na casa. Mas a separação do casal só foi adiada.

Num sábado, no notebook do marido, a hoje solteira Leninha descobriu que todas as viagens de Tadeu a trabalho eram grandiosas mentiras.

Numa pasta escondida entre os arquivos técnicos do Windows, encontrou fotos de churrascos intermináveis. Intermináveis e incompreensíveis, já que Lontra e o seu ex-marido se divertiam ao lado de Luquinhas e seus amigos de faculdade na república do filho no interior.

E não foi surpresa para Leninha que, após o divórcio, Lontra voltou a morar em São Paulo e passou a ocupar o lugar na cama que antes era só dela.


swedenblog
por Fabio Lattes

A notícia se alastrou pela turma como fogo num rastro de pólvora que leva até dezenas de barris recheados do perigoso e inflamável pó cinzento. E explodiu tudo pelos ares quando chegou aos ouvidos e bocas das meninas que compõem a galera:

- Você viu que o Vandinho tá namorando?

Tamanho espanto tem motivo. Em todos os anos de faculdade e pares de anos mal pagos como recém-formados, Alessandro Couto Medeiros, o Vandinho, nunca foi de se deixar enlaçar pelo cinema de domingo e a garantia de pés quentinhos debaixo de edredons. O apelido, uma homenagem ao sedutor cantor Wando, traduzia sua fama de conquistador irreversível e completamente avesso a qualquer simulação de matrimônio que evitasse seus lábios de experimentar o gosto de vários.

Mas dessa vez era diferente. Vandinho mudara. Dizia ter encontrado a menina certa, que no seu palco agora só suas calcinhas lhe bastavam serem lançadas. Dani. Tinha nome de mulher gostosa - e realmente era. Olhos claros, corpo escultural, cabelos lisos e morenos sempre empurrados para trás acompanhando um arrebatador sorriso.

As meninas parabenizam o jovem namorador. Davam gritinhos quando ele confirmava a notícia, saltitavam e em seguida abraçavam o amigo, combinando mesas para 4 em restaurantes japoneses e feriados em Monte Verde.

Para os camaradas, a notícia nos primeiros dias foi completamente devastadora. Clima de Copa do Mundo perdida, de total desconsolo. O porto seguro da solterice, a referência, o último dos moicanos e telefones para se ligar em caso de término súbito, agora perdido para um par de seios e mini-saias.

Mas o choro foi logo engolido com cervejas e a simpatia de Dani e suas amigas: lindas, tesudas e disponíveis amigas. E para a alegria da turma, Dani era um craque. Como um meio-campista a distribuir passes milimétricos à destranbelhados centro-avantes, a senhora Vandinho tinha o dom de apresentar todas suas beldades com uma piscadela e um “vai que é tua, Taffarel”. Era escolher, e Dani armava a jogada para o mais belo dos gols de placa.

Não tardou para após o primeiro bar de apresentação à Dani e suas amigas, o compromissado Humberto jogar seu anel prateado ralo abaixo e voltar do banheiro terminado – e sorridente. E ele foi o primeiro de muitos. Solteiros, enrolados e namorados, todos os amigos concordavam com uma coisa: Vandinho havia encontrado uma verdadeira mina de ouro.

Vandinho estava cada dia mais feliz, encantado com as delícias do amor. Sorria pela rua, cantarolava no trânsito das 6 e meia, aumentava o volume do rádio quando tocava o tema da novela das 8. Dani lhe fazia bem, e o melhor: reservava um pouco de seu encanto aos seus amigos, apresentando – daquele seu jeito - novas lindíssimas amigas a cada fim de semana. Como na anual a viagem de verão, quando levou simpáticas colegas que trabalhavam no árduo mercado de modelos de biquini.

Tudo era alegria na turma, com todos se sentindo com peles feitas de favos de mel, no topo do seu jogo, chovendo em hortas que logo virariam gigantescas plantações. Tudo perfeito, até outro gigantesco barril explodir.

Era uma quinta-feira fria e chuvosa quando o conclave fora organizado. Sentados na mesa circular e de feltro verde, a alta cúpula dos amigos de Vandinho foi convocada com urgência. Gordinho, cujo apelido era “Roberto”, foi o primeiro a falar:

- Amigos, estamos aqui para apurar e decidir sobre algo muito importante. Para nós, para o Vandinho, para nossa vida sexual.

Com um gesto largo, Gordinho estende a mão para a diagonal com os dedos colados uns aos outros, dando a palavra com um pesar de chumbo na sua voz.

- Eurico, por favor.

Atualmente saindo com duas gemêas intercambistas da Suécia, apresentandas pela meia-campista, o tímido Eurico deu a notícia com lágrimas nos olhos. Dani, a namorada mais perfeita que um amigo já havia encontrado, foi vista com outro. Mão dadas, risadinhas, beijos entre lambidas de casquinhas de sorvete… A receita para um corno completo.

- Mas você tem certeza que era ela? - Em claro desespero e com lembranças da morena que quase rancou seu lábio inferior, Danilão faz sua pergunta de leite derramado.

- Era, cara. – um longo suspiro afunda o queixo de Eurico no seu peito – Era de dia, eu estava muito perto. Perto demais… Ela me viu.

Um silêncio aterrorizante invadiu a sala. Um antigo relógio de pêndulo cortava ritmado a total ausência de som que tomava o recinto. Eurico tentou continuar, mas não encontrou palavras. A doce Dani, sempre solícita, virou amarga e chantagista. Um dia após o fatídico encontro, Eurico escutou “Não é você, nem sua dieta errada e falta de exercícios diários. Sou eu.” da personal trainer que saía.

Um claro recado que instaurava um grave dilema. A verdade libertava Vandinho de seus chifres, mas levava com eles para todo o sempre as beldades apresentadas, bem como as que viriam a deitar de cabelos soltos em suas camas.

Cerveja gelada ou o suor lambido de lindos pescoços? Viagens de carro ou o trânsito parado por quem passeia ao lado? Amizade ou o sexo mais sensacional de suas vidas?

Um sacrifício havia de ser feito.

Com dor no coração e saudades da morenassa chef de cozinha que Dani lhe apresentou, Gordinho diz seu veredito:

- Temos que contar para o Vandinho. Tudo.

Os quatro amigos se entreolharam, e com a maior das forças de vontade, consentiram. Pela amizade, pela camaradagem, pelo amor fraternal ao irmão corneado. Eurico ficou de engolir o choro e ligar para Vandinho, contando tudo. Tomou fôlego e começou a discar, entre fungadas nasaladas. Logo antes de levar o aparelho ao ouvido, o celular explode com o apito de uma mensagem:

Oie! Preciso de um favorzão. 4 amigas vieram direto de Floripa para uma sessão de fotos e não tem onde ficar, acredita? =P Falei bem demais de vc e os meninos. Vcs podem recebê-las? É só por uns dias…

Iluminados pela pequena tela quadrangular, os quatro amigos se entreolharam.



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