Ali, naquele aninhamento quiçá maternal que só sua chez long poderia oferecer, alternando manifestações intestinais e bitoquinhas em seu scotch 12 anos enquanto folheava seu recém terminado livro, O Segredo, Glauber pensou:
- Taí, sou feliz.
Tinha razão. Basicamente por que tinha também o cargo de vice-presidente executivo de uma multinacional de telefonia, uma esposa maravilhosa, tão gostosa quanto compreensiva, uma família que o amava, amigos que faziam questão de sua presença e, o mais importante, dizia a si mesmo num raro ímpeto pouco materialista: uma saúde de ferro. E se ele tinha tudo isso sem nem conhecer O Segredo, ah, daqui pra frente ninguém o segurava. Rumo ao topo. Se não estivesse ma capa da Forbes até o final do ano, ao menos a Vejinha São Paulo era garantida.
- Mentalizar coisas boas pra mim, atrai coisas boas pra mim. Óbvio. Como nunca pensei nisso?
Estava tão entusiasmado com a epifania que decidiu presentear cada funcionário da empresa com um exemplar.
- Pessoal, isso vai mudar nossas vidas. Logo seremos lideres do mercado!
Aplausos, assobios, bolinhas de guardanapo. De fato a empresa cresceu nos meses seguintes, o que despertou o interesse de uma das maiores holdings de comunicação do mundo.
E como manda a tradição, depois de toda proposta irrecusável vem uma outra proposta irrecusável: a da dispensa, que coube a Glauber comunicar aos seus:
- Carlos, não é nada pessoal. Estou plenamente satisfeito com o seu trabalho, mas são ordens superiores.
- Brigitte, você é extremamente competente, tem postura, tem iniciativa, tenho certeza que em breve você já estará recolocada no mercado.
- Meirelles, depois de 35 anos, chegou a hora. Sinto muito por ter que dar essa notícia, você sabe como são as coisas…
O peso de ser o arauto do desligamento logo deu lugar à alegria de um aumento substancial na conta corrente. E foi exatamente aí que a vida de Glauber começou a mudar. Primeiro foi sua esposa.
- Quero que você saia de casa.
- Como assim Flavinha?
- Quero o divórcio…
- Mas…
- Você não percebeu? Não tem mais encanto, amor, sei lá, tô confusa.
- Eu amo você Flavinha!
- Glauber….eu conheci alguém…estou apaixonada por outro…
Aquilo soou, well, como uma loira gostosa dando um pé na bunda, claro. Mas o mundo de Glauber tinha caído. E bem fundo. Auto-estima à parte, procurou focar no trabalho, nos amigos, na família, sempre com bons pensamentos, vibrações positivas, planícies verdejantes, aquela coisa. E estava quase se recuperando quando descobriu que havia sido substituído no time do pessoal da faculdade.
- Porra Elias, que merda é essa?
- Ô Glauber, seguinte, precisamos ganhar o campeonato do clube esse ano, e você já não tá rendendo…
- Fui artilheiro ano passado!
- Tô ligado, mas tem neguinho de bode contigo, falando que você é traíra, que tava de rolo com a namorada do Benê.
- Ta maluco rapá? Quem inventou isso?
- Galera toda tá sabendo, tá ligado? Acho melhor você sumir por uns tempos, sei lá.
As ligações não atendidas que vieram em seguida também não ajudaram muito. Tampouco as brigas que começaram em seu núcleo familiar, após ter voltado a morar com os pais:
- Glauber, posso saber o que é isso?
- Mãe, você mexeu nas minhas coisas?
- Exijo uma explicação já!
- Mãe, tenho 38 anos, sou dono do meu nariz…
- Ah, então isso é motivo pra fumar maconha?
- Pago minhas contas, sou responsável porra!
- Quando seu pai souber, vai te expulsar de casa Glauber César!
Realmente expulsou. E quando ele achava que não tinha mais nada a perder, isso mesmo, leitor, você adivinhou:
- Glauber, você sabe que estamos reestruturando a empresa. E neste novo organograma, você não está incluído.
- Qué isso Olavo…
- Não sou eu que decido Carlos…
Sem emprego, sem esposa, sem amigos, caralho: assim era difícil pensar positivamente. E olha que ele estava se esforçando. Mesmo. Respirava fundo, mentalizava beija-flores, acreditava que o Universo conspiraria a seu favor.
Num domingo introspectivo, caminhava pelo Ibirapuera quando reparou no pessoal da faculdade disputando uma peleja. Foi com grande surpresa que reconheceu o rapaz da camisa 9, antigamente sua. Era Carlos, aquele assistente demitido há alguns meses. E que agora, após cobrar uma falta certeira, corria em direção ao cara grisalho que, pera aí, era Olavo. Comemoraram, abraçaram-se e ouviram as palmas e os assobios de uma loira deliciosa que gritava ao lado do campo o nome do autor do gol. Era Flavia.
Acreditando estar num Dali, tamanha a surrealidade da cena, não resistiu e, ao fim da partida, foi cumprimentar seu antigo colega-de-firma.
- Grande Carlão!
- Ô Glaubão, beleza rapaz?
- Vamos indo, vamos indo. E você?
- Tô ótimo cara, Nunca estive melhor. E posso falar: aquele livro que você me deu me ajudou pra caralho!




