Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

segredo
por João Guilherme Pires

Ali, naquele aninhamento quiçá maternal que só sua chez long poderia oferecer, alternando manifestações intestinais e bitoquinhas em seu scotch 12 anos enquanto folheava seu recém terminado livro, O Segredo, Glauber pensou:

- Taí, sou feliz.

Tinha razão. Basicamente por que tinha também o cargo de vice-presidente executivo de uma multinacional de telefonia, uma esposa maravilhosa, tão gostosa quanto compreensiva, uma família que o amava, amigos que faziam questão de sua presença e, o mais importante, dizia a si mesmo num raro ímpeto pouco materialista: uma saúde de ferro. E se ele tinha tudo isso sem nem conhecer O Segredo, ah, daqui pra frente ninguém o segurava. Rumo ao topo. Se não estivesse ma capa da Forbes até o final do ano, ao menos a Vejinha São Paulo era garantida.

- Mentalizar coisas boas pra mim, atrai coisas boas pra mim. Óbvio. Como nunca pensei nisso?

Estava tão entusiasmado com a epifania que decidiu presentear cada funcionário da empresa com um exemplar.

- Pessoal, isso vai mudar nossas vidas. Logo seremos lideres do mercado!

Aplausos, assobios, bolinhas de guardanapo. De fato a empresa cresceu nos meses seguintes, o que despertou o interesse de uma das maiores holdings de comunicação do mundo.
E como manda a tradição, depois de toda proposta irrecusável vem uma outra proposta irrecusável: a da dispensa, que coube a Glauber comunicar aos seus:

- Carlos, não é nada pessoal. Estou plenamente satisfeito com o seu trabalho, mas são ordens superiores.

- Brigitte, você é extremamente competente, tem postura, tem iniciativa, tenho certeza que em breve você já estará recolocada no mercado.

- Meirelles, depois de 35 anos, chegou a hora. Sinto muito por ter que dar essa notícia, você sabe como são as coisas…

O peso de ser o arauto do desligamento logo deu lugar à alegria de um aumento substancial na conta corrente. E foi exatamente aí que a vida de Glauber começou a mudar. Primeiro foi sua esposa.

- Quero que você saia de casa.
- Como assim Flavinha?
- Quero o divórcio…
- Mas…
- Você não percebeu? Não tem mais encanto, amor, sei lá, tô confusa.
- Eu amo você Flavinha!
- Glauber….eu conheci alguém…estou apaixonada por outro…

Aquilo soou, well, como uma loira gostosa dando um pé na bunda, claro. Mas o mundo de Glauber tinha caído. E bem fundo. Auto-estima à parte, procurou focar no trabalho, nos amigos, na família, sempre com bons pensamentos, vibrações positivas, planícies verdejantes, aquela coisa. E estava quase se recuperando quando descobriu que havia sido substituído no time do pessoal da faculdade.

- Porra Elias, que merda é essa?
- Ô Glauber, seguinte, precisamos ganhar o campeonato do clube esse ano, e você já não tá rendendo…
- Fui artilheiro ano passado!
- Tô ligado, mas tem neguinho de bode contigo, falando que você é traíra, que tava de rolo com a namorada do Benê.
- Ta maluco rapá? Quem inventou isso?
- Galera toda tá sabendo, tá ligado? Acho melhor você sumir por uns tempos, sei lá.

As ligações não atendidas que vieram em seguida também não ajudaram muito. Tampouco as brigas que começaram em seu núcleo familiar, após ter voltado a morar com os pais:

- Glauber, posso saber o que é isso?
- Mãe, você mexeu nas minhas coisas?
- Exijo uma explicação já!
- Mãe, tenho 38 anos, sou dono do meu nariz…
- Ah, então isso é motivo pra fumar maconha?
- Pago minhas contas, sou responsável porra!
- Quando seu pai souber, vai te expulsar de casa Glauber César!

Realmente expulsou. E quando ele achava que não tinha mais nada a perder, isso mesmo, leitor, você adivinhou:

- Glauber, você sabe que estamos reestruturando a empresa. E neste novo organograma, você não está incluído.
- Qué isso Olavo…
- Não sou eu que decido Carlos…

Sem emprego, sem esposa, sem amigos, caralho: assim era difícil pensar positivamente. E olha que ele estava se esforçando. Mesmo. Respirava fundo, mentalizava beija-flores, acreditava que o Universo conspiraria a seu favor.

Num domingo introspectivo, caminhava pelo Ibirapuera quando reparou no pessoal da faculdade disputando uma peleja. Foi com grande surpresa que reconheceu o rapaz da camisa 9, antigamente sua. Era Carlos, aquele assistente demitido há alguns meses. E que agora, após cobrar uma falta certeira, corria em direção ao cara grisalho que, pera aí, era Olavo. Comemoraram, abraçaram-se e ouviram as palmas e os assobios de uma loira deliciosa que gritava ao lado do campo o nome do autor do gol. Era Flavia.

Acreditando estar num Dali, tamanha a surrealidade da cena, não resistiu e, ao fim da partida, foi cumprimentar seu antigo colega-de-firma.

- Grande Carlão!
- Ô Glaubão, beleza rapaz?
- Vamos indo, vamos indo. E você?
- Tô ótimo cara, Nunca estive melhor. E posso falar: aquele livro que você me deu me ajudou pra caralho!


hppy24
por João Guilherme Pires

Com 15 anos, logo após conseguir seu primeiro emprego, Juarez abriu um fundo de previdência privada. Na época ninguém entendeu nada. Precoce esse menino, uns diziam. Esse vai longe, afirmavam outros categoricamente. Já Carmina, sua tia de Avaré, era mais cética: isso é coisa do demônio chamado televisão. Tanta propaganda endoidou o moleque.

O fato é que Juarez não só abriu como, religiosamente, depositava uma porcentagem do seu ordenado lá. Foi assim trabalhando na banca do Toninho, na farmácia do Seu Lafon, no escritório do Dr. Emílio.

- É preciso pensar no futuro -, ele repetia.

Terminados os estudos fundamentais, era hora de decidir sua carreira profissional.

- Vou ser médico.

Surpresa geral na família. Justo ele, que não podia ver sangue e logo desmaiava?

- É preciso pensar no futuro, gente. Nunca vai faltar doente no mundo.

De fato, era uma escolha promissora. E com um mercado estável. Bastava fugir do sangue, oras. Pensando assim, ingressou em uma das melhores universidades do pais e especializou-se em radiologia, para garantir. Nada de sangue, nada de gente. Recebia elogios, boas notas e, o melhor, indicações. Logo estava trabalhando nos melhores hospitais da cidade.

O que o amigo leitor não sabe até agora é que tanta dedicação aos estudos acabou por deixar Juarez afastado de algo essencial para a existência humana: as mulheres.

- É preciso pensar no futuro. Mulher não vai encher minha barriga, vai?

Fosse ele um tipo esbelto, viril, de traços italianos ou nórdicos, quem sabe. Mas Juarez tinha uma fisionomia absolutamente normal, irritantemente convencional. Lembrava, como dizia um famoso pensador, um copo d´água.

Mas felizmente as namoradas vieram. Afinal era inteligente, bem humorado, tinha uma boa grana. E estava para completar seus 30 anos.

Primeiro foi Patrícia, dermatologista do Oswaldo Cruz. Loira, linda, ótima companhia. Saíram muitas vezes e era sempre perfeito. Gostavam das mesmas musicas, tinham a mesma preferência pela culinária japonesa, sonhavam em conhecer o mundo. Isso até o dia em que Juarez foi convidado para o aniversário surpresa de Luíza, irmã de Patrícia. A família toda estava presente. O jantar correu bem. A comida estava ótima. Juarez nunca mais ligou.

Depois veio Edna. Jornalista, inteligente, fazia o tipo mais alternativo e em nada se assemelhava à ele. Ninguém apostava no casal. Todos estavam errados. Ou melhor, em parte. Passaram muitos bons momentos. No meio de tanta diferença, encontraram a própria sintonia. Edna inclusive estava radiante ao finalmente levá-lo para conhecer sua cidade natal, Araçatuba, na ocasião do aniversário do avô. Foi apresentado à toda família, regozijou-se com os comes e bebes, seguiu as regras da boa convivência social. E, na hora do “Parabéns”, enquanto as atenções estavam voltadas para Seu Firmino, que completava 89 anos, entrou sorrateiramente no carro e partiu.

Mas pior ainda foi o caso de Lucinha. Apresentada em uma festa por um amigo em comum, se dizia apaixonada já no dia seguinte. Eram um grude só. Uma paixão de dar inveja – e causar brigas -, em casais já consumidos pelo tempo. Flores, chocolates e outros mimos eram uma constante. E na cama, bom, basta dizer que Juarez aprendeu muito do que sabe com Lucinha. Conta-se que certa feita, passando o reveillon em Trancoso com amigos, os dois foram vistos na área social do hotel duas ou três vezes. Sempre em direção ao quarto.

Tanto amor e felicidade mereciam ser celebrados. Por isso, para comemorar aquele primeiro ano de namoro, Lucinha preparou uma viagem surpresa à Nova York, onde moravam seus pais. Conheceram a cidade, jantaram nos melhores restaurantes, visitaram os principais museus, assistiram à peças da Broadway. Foi em uma delas, inclusive, que durante uma ida ao toalete Juarez chamou um táxi, foi até o aeroporto e voltou ao Brasil.

Alguns achavam que ele era gay. Outros tinham certeza. Mas o fato é que ninguém entendia Juarez. Isso, claro, até ele conhecer Carol. Morena, alta, voluptuosa, de causar torcicolo. Morava dois andares abaixo no condomínio para o qual acabara de se mudar.

Naquele primeiro momento, todo mundo pensava ser esta apenas mais uma das aventuras do nosso protagonista. E, por isso, com data certa para terminar.

Quem diria que, num despretensioso sábado a noite, tudo mudaria. Carol convidara os pais para um jantar em casa, aproveitando a oportunidade para apresentar Juarez. Mesa posta, velas acesas, jazz na vitrola e, para acompanhar, um bordeaux reservado para ocasiões realmente especiais.

Às 8h em ponto chegaram Carlos e Ângela, as esperadas visitas. E, naquele exato momento, não havia mais dúvida: ela era também linda, estonteante, curvilínea como a filha.

Tranqüilo e enfim realizado, Juarez acariciava no bolso do paletó a caixinha com as alianças que tantas vezes carregou consigo, agora certo de que finalmente as usaria. E enquanto isso, repetia baixinho para si mesmo:

- É preciso pensar no futuro, é preciso pensar no futuro.


happy23
por João Guilherme Pires

Na guerra, o homem esquece de si. Retorna ao estado animal. Não há moral, não há humanidade, só o caos. O que acontece no campo de batalha, não morre no campo de batalha. Fica na cabeça pelo resto da vida. Fazemos coisas que nunca imaginaríamos ser possível. Brutalidade. Irracionalidade. Perversidade.

Assim pensava João Manuel, enquanto olhava na mira de sua AR-15 à espreita do inimigo. Tiros vinham de todas as partes, ricocheteando nas estruturas que estavam à sua volta. A morte era iminente. Já havia perdido quase todos os companheiros. Acabara de ver o sargento Hills desintegrar-se na sua frente ao pisar em uma mina. Malditos nazistas. Ele precisava agir. E rápido. Ouviu o som da esquadrilha aérea se aproximando. Mas não sabia de qual lado era. Puta merda, resmungou. Num movimento ágil, quase instintivo, levantou da trincheira, apoiou-se nas barricadas, passou pelo arame farpado e pressionou com toda força o gatilho. Atirava a esmo. Não demorou para ser atingido: primeiro na perna, depois no braço. Daí veio o de misericórdia, no pescoço. Ainda sentia o sangue quente escorrendo pelo corpo quando, subitamente, acordou.

Estava em casa. No sofá. E precisou apenas de alguns segundos para entender tudo: na televisão passava Rambo III, com todas as explosões, tiros e gritos que estão no pacote. Aliviado, voltou a dormir.

Alguns dias depois e João Manuel estava na praia. Ubatuba. Adorava ir pra lá com a família e os amigos. Ainda mais quando fazia um solzão daqueles. Observava na areia a mulherada de biquíni, bumbum pra cima, marquinhas. Resolveu entrar no mar, pra aliviar. Correu e mergulhou fundo. A sensação foi revigorante. Nada melhor do que ficar boiando e pensar na vida, disse em voz alta. E assim ficou, tranquilamente. Pelo menos até sentir uma dor lancinante no braço direito e ser arrastado para o fundo. Abriu o olho, desesperado, e tudo o que via era sangue. Tentava nadar em direção à claridade que julgava ser a superfície, mas era extremamente difícil. Batia as pernas em ritmo alucinado e finalmente colocou a cabeça pra fora d´água. Conseguiu ver a barbatana cinza se aproximando novamente. Desesperado, começou a dar braçadas na direção contrária. Foi quando percebeu: perdera seu braço direito. Ao ver as vísceras, o osso e o sangue, sentiu um nó na garganta. Era o fim. Nessa altura a criatura já estava de boca aberta e João Manuel constatou que, com tantos, enormes e afiados dentes, seria cortado tranquilamente no meio. Gritou e, em um instante, acordou.

Estava em casa. Na cama. Chovia muito lá fora e, curiosamente, aquilo produzia som semelhante ao que ouvia em alto mar. Pior: adormecera em cima de seu braço, que agora não sentia nem movia. Achou graça e, depois de alguns movimentos para ativar a circulação, dormiu novamente.

Passaram mais alguns dias e João Manuel resolveu ir ao clube. Estava de férias, há tempos não ia. Foi na piscina, tomou sol, bebeu algumas cervejas e, no fim da tarde, decidiu pegar uma sauna. Estava vazia, o que era um milagre. À vontade, deitou e se deixou pegar no sono. Acordou com a porta de madeira se abrindo. Era Sandrinha, amiga de infância. Haviam se conhecido no clube e, de uns anos pra cá, ela tinha se tornado uma tremenda gostosa. Que bunda, que peitos. É claro que ela nem imaginava. Poderia estragar a amizade. Por isso João Manuel preferia nutrir sua paixão em segredo. Levantou apenas a cabeça e cumprimentou normalmente: oi Sandrinha, tudo bem? Estranhou o fato dela não dizer nada. E mais ainda de beijar sua boca. Como assim, tão de repente? Tentou articular uma frase mas não conseguiu. Ela agora beijava seu peito nu. Seu umbigo. E logo, bem, você pode imaginar. João Manuel teve a sunga retirada com delicadeza. E seu membro sugando da mesma forma. Suave e demoradamente. De olhos fechados, era difícil acreditar no que estava acontecendo. Por isso fez questão de, na maioria do tempo, mantê-los bem abertos. A cabeça subia e descia, olhos nos olhos. A língua quente passeava por toda a extensão do seu órgão, levando-o ao delírio. O ritmo foi acelerando. A profundidade aumentando. Veio então o gozo, farto e intenso. E na seqüência, como há de ser, o sono.

Acordou confuso em sua cama. A manhã já estava no ápice e fazia calor no quarto. Ainda estava se espreguiçando quando sua mãe abriu a porta e, com um sorriso no rosto, perguntou o que ele queria para o café. Estremeceu ao lembrar: estavam sozinhos em casa.


condo2
por João Guilherme Pires

“Olha, a policia me perguntou e eu já disse: pra mim não tinha nada de estranho nos dois não. Eram simpáticos, discretos. De fim de semana, quando fazia sol, estavam sempre na piscina. Não dá pra entender como isso foi acontecer. Fiquei chocada. A Lurdes, do 47, disse que ainda ouviu o barulho do corpo dela lá embaixo. Deus me livre. Vai acabar tendo pesadelo.”

Alzira Mendes, apto. 102, dona de casa.

“Eu tava treinando uns arremessos na quadra, lá atrás, quando ouvi o som do corpo. Sou federado no juvenil do Tietê e depois de amanhã tenho jogo. Então nem dei bola. Mas quando ouvi os gritos, fui pro pátio e vi Dona Marisa, quer dizer, o corpo, todo torto. Fui ver de perto. Não tenho problema com isso não, quero ser médico quando crescer. Cirurgião. Meu tio é e ganha a maior grana. Então, foi aí que eu reparei: ela segurava uma calcinha na mão.”

Omar Minello Malinovski, apto 74, estudante.

“Pessoal andava comentando por aí que ele traía ela. Que tinha amante. Mas ninguém tinha certeza. Ele sempre passava em casa na hora do almoço. Não dá pra saber. Mas que saía sempre de cabelo molhado, saía. Mas pode ser o calor, ué. Uma ducha faz bem pra renovar as idéias, trabalhar melhor. Tira o sono de tarde. Se pudesse eu fazia o mesmo.”

Honório Fonseca Jr. apto 132, consultor de vendas.

“Que desgraça, Pai do céu. Imagina: se jogar assim, sem mais nem menos. Ontem mesmo ainda perguntei: Marisa, tá tudo bem? Sabe quando você acha a pessoa meio esquisita, meio distante. Mas ela falou que sim, era só uma dor de cabeça. Servi um chá de camomila que dizem que acalma. Combinamos até de ir na feira hoje, pra você ver.”

Cláudia Serqueira Alencar, apto 28, aposentada.

“A Neide, que faz a faxina aqui de casa, começou essa semana também lá no 41, onde a Marisa morava. A antiga faxineira pediu as contas e eu indiquei a Neide, que é super confiável, trabalha bem. Aí quarta, ou terça, não sei, ela me disse que encontrou uma calcinha no bolso do paletó do Doutor Nelson. Na maior inocência, contou pra Dona Marisa e perguntou se era pra lavar, deixava lá, o que fazia. Nem pensou duas vezes: cada um com a sua maluquice né. Pois quando Dona Marisa viu e reconheceu, ficou louca.”

Cristina Freire Oliva, apto 121, secretária

“Foi horrível. Parecia um, sei lá, um bloco de concreto, madeira. Um barulho abafado, alto. Corri pra janela e vi. Chamei logo a policia. Nem tive coragem de olhar de novo. Tadinha. Ninguém merece. Você sabe né? Ela foi traída pelo primeiro marido. Armando, Arnaldo, não lembro. A filha é desse casamento. Regula uns 17 anos, por aí. Linda, a garota. Ela e o padrasto se dão muito bem. Devem estar arrasados.”

Lurdes da Silva Penteado, apto 17, costureira.

“Um dia ele me falou que estava passando por uns problemas aí, mas não entrou em detalhes. Mas tava na cara que tinha mulher no meio. Homem, quando tem problema com mulher, fica com um ar estranho. Sempre meio avoado, meio besta. Só não imaginava que era isso. O pessoal vai ficar chocado quando souber dos dois.”

Lucas Conde Filho, apto 26, advogado.

“Foi tudo muito rápido. Até agora não sei direito o que aconteceu. Fico com pena da Camila, filha dela. Namoramos uns 9 meses. A Dona Marisa sempre foi muito legal comigo. Eu tava chegando no prédio e parecia que tinha acabado de acontecer. Passei pelo jardim e vi o Omar gritando, me chamando. Fui lá e vi o corpo. Caraça, nunca vou esquecer. E o Omar que me chamou atenção pra calcinha. Nem falei nada, mas era da Camila. Ela ficava um tesão quando vestia.”

Bruno Souto Vieira, apto 98, estagiário de jornalismo.


iceberg4
por João Guilherme Pires

O tsunami de pensamentos e sensações vespertinas de Cláudia a estava deixando atônita. Cenas desconexas se passavam em sua cabeça, como num filme editado às cegas. No entanto, suas sinapses foram interrompidas bruscamente pela mão de Fábio em seu ombro.

- Ai!
- Calma!
- Que susto. Nossa, tava viajando aqui…
- Percebi.
- Vai ter happy hour hoje, aniversário do Carlão, tá sabendo?
- Ah é?
- Mercearia, vamos?

Well, lá estava o fenômeno natural voltando ao agradável corpo de nossa personagem.

E eu, assim como você, imagino, estava torcendo pra ela aceitar o convite, talvez pelo simples prazer de assistir o recriminável acontecer. É da natureza humana apreciar o improvável. Contudo, não foi o que aconteceu. Sejamos fiéis aos fatos.

- Não vai dar, tenho que sair com meu namorado.
- Sério? Chama ele.

E se estamos compromissados com a verdade, é necessário dizer: Cláudia não gostou de ouvir aquilo. Como assim, chamar Marcelo? A presença dele impossibilitaria qualquer aproximação. Principalmente a labial. Isso sem falar na manual. A genital estaria fora de cogitação. Ele não quer, é isso?

- Hoje não dá mesmo, está marcado, é aniversário de namoro…
- Vão comemorar? Tá certo.
- Pois é.
- Fica pra próxima então.
- Com certeza.

O happy, como ficou sabendo na segunda, foi ótimo. Fábio inclusive foi visto, por volta das 2h, saindo de carro com uma de suas estagiárias. E a noite dela, bem, não ficou por muito menos. Há tempos o sexo não era tão bom. Tão dedicado. Tão transpirado. Marcelo, na real, não entendeu muito bem a inspiração da namorada, mas aprovou. Hormônio de mulher é fogo, disse aos amigos.

Aquele convite não saiu da cabeça de Cláudia. Ficava imaginando o que teria acontecido se tivesse aceitado. Provavelmente nada, pensava. Mas a possibilidade, a simples possibilidade, a excitava. Gostava de ser apreciada, de se sentir gostosa, desejada. Como toda mulher. É sempre uma massagem no ego. Mas neste caso, o ego dela não havia sido tocado, sequer passado por terapias manuais. Fora um convite absolutamente normal, direto, como qualquer colega poderia ter feito. Sem segundas intenções, sem malícia. E ela odiou constatar isso.



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