Almeida. Assassino profissional. Pós Graduado. Atualmente cursando Técnicas de Tortura Medieval em Oklahoma. Sempre que escrevo isso, tenho a impressão de estar copiando alguém. Não sei. Não importa. Pessoas como eu, aliás, se importam pouco com coisas. É a vida. Ou a morte, no meu caso.
Às vezes me pego pensando nas putas: elas, como eu, devem ver cada coisa por causa da profissão que exercem. Passagens inenarráveis, fatos absurdos, gordos impotentes e cheiradores.
Gordos. É deles que vou falar hoje. Gordos são difíceis de se lidar. Ocupam espaço, suam, encarecem a conta, sujam a camisa de molho. Roncam.
Mas não foi nada disso que levou meu caminho a cruzar o de um gordo especial. Você deve conhecer. Ele vive na televisão.
A história começou na Rússia, alguns anos atrás. Conheci o Oleg Nikiforov em um albergue na Letônia. Eu estava num mochilão. Eram outros e inocentes tempos. Russo, Oleg era um jovem militante comunista, estudante de filosofia na Universidade de Lomonosov, em Moscou. Saudoso dos tempos da Revolução de Outubro, das greves operárias, do Trotskismo e dos gulags soviéticos. Mais tarde entendi: era workholic e adepto de práticas sadomasoquistas.
Certo feita, há algumas semanas, ele me ligou:
- Almeida?
- Quem fala?
- Oleg, Oleguinho.
- Quem?
- Letônia, nos conhecemos em uma festinha muito louca. Lembra? No final você estava num 69 alucinado com aquelas gêmeas siamesas…
- Sei sei, pode falar.
- Preciso dos seus serviços.
- Vamos nos encontrar.
Marcamos no Filial, um movimentado bar da Vila Madalena que remete aos anos 50, com chope cremoso (Brahma, 330ml, R$ 4,50), colarinho caprichado e horário flexível. No dia da visita, a linguiça toscana com couve-flor não decepcionou.
- R$ 5 milhões! R$ 5 milhões por mês e tanta gente no mundo na miséria!
- Entendo.
- Você consegue?
- Sou um profissional. Mas o cachê será alto.
- Temos R$ 20 milhões.
- Acho que dá…
Ele me explicou. A notícia de que um famoso apresentador de televisão do Brasil renovou seu contrato por um valor astronômico repercutiu nas inúmeras e perseverantes organizações comunistas do mundo. O Partido Comunista da Rússia então resolveu agir, acreditando ser essa a oportunidade para o primeiro novo passo em direção à Ditadura do Proletariado. Arrecadou doações, mobilizou integrantes do partido, vendeu vodkas artesanais, patrocinou ensaios nús de tenistas russas, cooptou Partidos Comunistas ao redor do mundo e, por fim, chegou à soma em questão. Restava agora arranjar alguém quem fizesse o serviço.
- Fechado. Aguarde notícias.
O planejamento foi minucioso. A vítima vivia em uma mansão imponente, digna de seu porte físico. E, como era de se esperar, muito bem vigiada. Mas um bom profissional supera os obstáculos, basta apenas ter um bom estratagema.
Enfim chegou o Dia D. Ou Dia G. Não revelarei os meios – repudio o Mister M -, mas me desvencilhei do que era necessário e fiquei em posição. Bastava aguardar o momento certo para o golpe fatal.
Vi que ele chegou. Aliás, fui implacavelmente informado, pois assim são os gordos quando adentram um aposento.
Ao aplicar a tática do estrangulamento com fio ultra-fino-que-sai-do-relógio-de-pulso, fui surpreendido e falhei. É. Um erro de cálculo. A arma era feita para pescoços normais. Não contava com aquela camada extra de gordura que não me permitiu travar o golpe. Ele reagiu:
- Ô loco meu!
Eu estava rendido. A missão teria de ser repensada. Resolvi adotar a tática chinesa do Xian. Significa Finjo-que-me-arrependi-e-sou-seu-amigo:
- Desculpe…. eu…fui contratado para matar você.
- Olha aí meu, grande fera!
- É…
- Eeeeita!
- Pois é. Mas deixa pra lá, vou indo nessa.
- Como você chama?
- Almeida.
- Glorioso Almeida, quem contratou você?
- Não posso revelar.
- Grande fera bicho, profissional de respeito. E vão pagar quanto?
- Não revelo.
- Eu dobro, pra você não me matar.
- …
- …
- Fechado.
Desculpe decepcionar algum leitor, mas foi isso que aconteceu: o gordo comprou a própria vida. No fundo, até simpatizava com a causa de Oleg. É muita grana pra uma pessoa só. E ele nem faz os merchandisings direito. Nunca sabe de quem ou do quê está falando. Mas o mundo é assim. Rorschach que o diga. Paciência. Negócios são negócios. E uma coisa que gordos sabem fazer bem é negociar. Ninguém consegue atingir um tamanho assim sem algum poder de persuasão.
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