Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

amidalas21
por Fabio Lattes

De saída de uma sessão das 9 e meia de segunda, dois amigos batem a porta e seguem para casa no ronco de um motor 1.0. No banco do carona, Ari tenta fazer um comentário sobre as curvas da atriz principal, mas acaba mudando de assunto por engolir sua saliva com uma careta.

- Nossa, minha garganta tá zuada demais. Minhas amídalas tão com pus até, cara.

Logo depois de engatar a terceira marcha, o amigo e motorista responde com um sorriso na voz.

- Pensa pelo lado bom cara… podiam ser seus testículos.

- É… Tem razão. – ri de leve, sacudindo os ombros - é bom ter um amigo para mostrar o lado bom das coisas.

- Pois é, você é um rapaz de sorte.

O carro acelera e atravessa o sinal amarelo quase subindo para o vermelho - que para a imensa maioria dos paulistanos ainda é verde. Pablo, o motorista e piadista, olha para a noite pela janela abaixada e recebe a brisa e o cheiro de 11 da noite no rosto.

- Que noite boa pra tomar uma brejinha… Você fecha?

- Nao cara, com essa garganta.. Não dá. Se eu quiser te acompanho.

- Ah sussa, então desencana. – Pablo boceja, substituindo a vontade de entornar um copo americano por deitar sua cabeça num travesseiro. E abrindo a boca com um meio sorriso, continua:

– Mas que a noite tá boa, tá… Se você fosse uma mina ia te levar pra casa, embebedar e tentar te comer.

Ari rebate à altura:

- Cara, se eu fosse mina você ia me levar pra minha casa. E só.

- É, e provavelmente gastar muito mais.

E rindo, o 1.0 segue seu caminho pela avenida Brasil.


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deusjonis
por João Guilherme Pires

Confesso que sou uma pessoa metafísica. Fazer o quê? Sou mesmo. Devia ter meus 12 ou 13 anos quando, um dia, ah, e que aflitivo dia, concebi o seguinte raciocínio:

Eu, quando durmo, não sinto nada.
E se, quando eu morrer, for exatamente assim. Só que sem acordar.

UOU!

Foi meu primeiro contato com o meu não-ser. Nessa noite não dormi. E, desde então, remôo esses questionamentos divino-existenciais.

Imagina só, Deusão por aqui, num boteco da Augusta, tomando uma cerva e sendo conhecido por um apelido clássico, tipo, Cebola ou Montanha?

- Aí Mountain, o serviço daqui é show de bola. Quando venho aqui meu copo nunca fica vazio.
- É…o serviço, claro…

- Umas patinhas de caranguejo seriam perfeitas agora, fala aí Cebs? Ih, malandro, olha lá, tem um maluco vendendo patinha de caranguejo? Surreal véi, nunca vi isso por aqui!

É, porque se ele esta entre nós significa que ele pode ser qualquer um de nós. Inclusive aquele puta babaca que você não gosta, o que provavelmente vai te deixar em maus bocados nos hipotéticos e vindouros dias da redenção final.

- Pô, então você é Deus?
- Pois é.
- Aquele lance com a tua mulher, sabe, foi impulso, coisa de momento…
- Já parou pra pensar que toda vez que você dizia “Meu Deus do Céu, que gostosa!” era comigo que você estava falando?
- Olha, mil desculp…

BUUUUM. Inferno.

Mas há possibilidades mais aprazíveis, claro. Vai que ele é seu pai? (E neste caso você seria irmão distante de Jesus! Olha que bacana!)

- Pai, quero uma bicicleta de Natal!
- Ok filhão.
- E um videogame, um computador, uma montanha-russa, um tobogã, um golfinho, uma bola, um carrinho de rolimã, um pogobol, um cata-vento, um dinossauro, um copo de plástico e um pinico assinado pelo Marcel Duchamp!
- Ok filhão.

Ou ainda ser sua namorada, ahn, ahn? Que tal?

- Amor, você acha meus peitos bonitos?
- Claro linda!
- Ou poderiam ser maiores?
- Ah…sei lá…um pouquinho talvez…
- Assim?
- …..

Contudo, algumas pessoas podemos seguramente eliminar da lista das prováveis Deus. Joelma do Calypso, Lacraia, Equipe de Redação do Zorra Total, Steven Seagal, Agnaldo Rayol, Amy Winehouse, Renata Sorrah, Netinho de Paula, Belo, Donald Sutherland, Telemarketings em geral, Theo Becker, Dado Dolabella e, pra entrar na moda, Sarney e Maluf. Deus não seria sádico assim.

Mas já que divagações assim são longas como o número PI – não sei onde fica no teclado -, me contenho e me resigno ao conceito do agnosticismo. Pra esse problema, acredito não existir solução concebível pelo entendimento humano.

Maaaaas, se algum dos meus leitores for Deus, favor não me leve a mal, ok? E, se der, como diria Woody Allen, deposita um qualquer-coisa na minha conta.


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jaotm
por João Vicente

Os assuntos se encontram nesta coluna. Na semana passada escrevi a respeito da cidade onde vivo e cunhei o texto de “São, São Paulo, meu amor”, refrão de uma conhecida música de Tom Zé. Coincidentemente, tive a oportunidade de presenciar uma palestra do artista no começo desta semana. Além das falas esperadas em uma palestra, o evento também consistiu em um pocket show do músico.

Sob aplausos, antes de qualquer palavra, Tom Zé deu início ao episódio com a canção “Politicar”, que tem como versos, por exemplo, “Meta sua usura / Na multinacional / Vá tomar na virgem / Seu filho da cruz. / Meta sua moral / Regras e regulamentos / Escritórios e gravatas / Sua sessão solene”. Daí em diante, o artista mesclou suas canções a contextualizações do que foi apresentado para, em seguida, falar a respeito da “idéia”.

Em suma, Tom Zé procurou passar suas considerações a respeito da importância de cada um de nós preservarmos nossas próprias idéias e não deixarmos que estas se percam em meio a nossos pensamentos. Disse o músico que as idéias são leves, não vêm com grandes formalidades e é necessário darmos atenção a elas. É necessário que se fique sozinho e se trabalhe na idéia, sem interferências externas, para que ela possa florescer. E mencionou uma de suas canções como um exemplo de como esta prática – de trabalhar idéias – funciona. Afinal, disse Tom Zé, foi a atenção a uma singela idéia de riff de violão e conseqüentes arranjos que deu origem a uma das canções que compôs para o álbum responsável por sua explosão nos EUA.

Para quem desconhece a história, conforme o próprio conta, Tom Zé estava disposto a abandonar sua carreira musical – que não lhe dava grandes retornos financeiros e midiáticos – para trabalhar como frentista em um posto de gasolina. No entanto, por um golpe do acaso, David Byrne, então integrante da banda Talking Heads, encontrou o disco “Estudando o Samba” de Tom Zé e, encantado, decidiu lançá-lo por meio de seu selo. Daí para frente a carreira internacional de Tom Zé deslanchou, o que acabou por se refletir no Brasil.

De volta a palestra, a exposição do músico a respeito da importância da preservação das idéias foi interrompida, porém, pelo semblante de grande parte da platéia. Tom Zé deteve sua fala em diversos momentos com comentários sobre o sono e o desinteresse que seu público lhe oferecia até, enfim, terminar quase bruscamente sua apresentação com uma última canção. Se o relato da palestra, até então, pareceu interessante para você, provavelmente também se surpreendeu com a reação da platéia, tal como eu.

Logo, comecei a questionar qual a razão que levou ao acontecimento que presenciei. Por que, enfim, diante de algo tão facilmente cativante, o público parecia inerte? E prontamente me veio a consideração de que os interesses são intrínsecos, próprios a cada um. Não há dúvida de que ninguém é obrigado a ter os mesmos interesses que outra pessoa. Em um planeta impregnado de consumo e imagens fáceis de televisão, qualquer tentativa cultural é, no mínimo, digna de asco. Contudo, diante de uma palestra, não seria minimamente respeitoso ouvir o que esta pessoa tem a dizer? Se um indivíduo se prontifica a participar de um evento, e não gostou do que viu, não deveria simplesmente se retirar?

Entretanto, me lembrei em seguida de meus anos no colégio. Diante do que não agradava aos alunos, certamente, estes não se retiravam, mas sim, dormiam, a despeito do que isso poderia significar para quem quer que fosse – eu incluso. E, se isto não acontece agora, é meramente porque sei que, naquele lugar, poderia ser eu. E sei que todo ser humano é digno de respeito, independentemente do que diga. Com variações, não atribuem a Voltaire a frase que diz: “Posso não concordar com uma só palavra que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-la”?

Mas é fato que, no colégio, tal como no cenário que presenciei, não se sabe disso verdadeiramente. As palavras a respeito podem até estar lá, porém, creio eu, são dificilmente assimiladas. Sei que a origem é outra, mas como escreveu Jimmy Cliff: “Perdoai-lhes, Senhor, eles não sabem o que fazem”.


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dog01
por B. Soraggi

PASSADENA, CA – Teve lugar em Orange County, Califórnia, a ‘3ª Competição de Verão de Tosa em Poodle de O.C.’. Comumente realizada na Primavera – mas adiada no primeiro semestre deste ano em razão da crise econômica mundial -, a competição premiou os melhores ‘bonsais de Poodle’, como é conhecida a prática que virou moda. O vencedor levou o prêmio de US$ 100 mil dólares, o segundo lugar ficou com US$ 50 mil e o terceiro U$ 30 mil. Como é de praxe desde a idealização do evento, o dinheiro foi doado a uma associação humanitária escolhida pelas donas dos cães contemplados. O total de US$ 180 mil de bônus pago na edição de 2009 foi, então, enviado à ‘Associação para as mulheres de cônsules a serviço em países subdesenvolvidos’.

A exposição foi seguida de um coquetel organizado pela empresa ‘Buffet del Mare Rosso’, de Kate D.M.S. Trumpy, e contou com a presença de empresários, mulheres ricas e amantes, além de Al Gore. Veja as fotos dos animais que ocuparam as quatro primeiras posições.

4ª colocação
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O Poodle de Liz quase passou desapercebido frente este lindo pavão.

3ª colocação
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Se pandas estão em extinção, não é por causa de Martha. Chamem WWF!

2a colocação
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O pirata mais querido do cinema ancorou-se pelos mares de Orange County! Hippie, hippie, ‘au’!

1a colocação

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O trabalho mais impressionante de todos. Quase se assemelha a um ser humano… Belo exemplar da versatilidade do Poodle de nome Chatteau mantido por Chris.


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segundaheader
por Fabio Lattes

Diz o ditado: “cabeça vazia é a oficina do Diabo”. Do Capeta. Do Coisa-Ruim. Do Exu-Caveira.

Muito mais que um playground do José Sarney, essa frase resume perfeitamente o fértil terreno que uma cachola vazia proporciona aos que se renderam ao marasmo de uma tarde.

E hoje, faço um breve workshop.

Pela primeira vez em muitos anos cheguei ao dia de ser uma segunda-feira e eu simplesmente não ter o que fazer. Não abri o vidro do carro para receber o Metro na esquina da Santo Amaro. Não fiz fila no quilo com um prato recém saído da máquina de lavar na mão e muito menos comemorei que era segunda, dia de comida árabe.

Estou no interior paulista, com os dedos postos no mesmo ruidoso computador de mesa que tantos slides sobre citoplasmas fez. Uma casa que há mais de quatro anos eu só conhecia por finais de semana, hoje mais uma vez, me mostrou sua rotina. Lá fora, o perdigueiro companheiro dorme ao sol. Vindo da cozinha, o som de locomotiva da panela de pressão e o cheiro de refoga quase borbulhando esperando por grãos de arroz.

A sensação é que logo visto meu uniforme amarelo ovo, minha mochila verde herdada do primogênito e sigo para a escola, rumo a minha apresentação sobre células na aula de biologia.

O fato é que desde o primeiro berreiro aberto neste mundo, o horário sempre nos acompanha. Seja ele imposto pelo leite materno ou pela reunião das 10 e meia, lá está ele. Chame-o de Compromisso, Hora Marcada ou Sessão das Sete, é ele quem apressa suas ensaboadas no chuveiro e toma seu café no elevador.

Nossa relação com o Horário é a clássica relação da mulher de malandro. A gente sofre, reclama, aparece com o olho roxo das noites mal dormidas, mas quando ele desaparece sentimos o peso de sua ausência, o seu cheiro dentro de um livro nas cinzas das horas.

Sem hora marcada nos sentimos incompletos, sem estímulos, presos somente a nossa própria Força de Vontade. E muitas vezes, ela não é páreo justo para a Preguiça. Somente o Horário, como o irmão mais velho que salva do valentão no recreio, encara a Preguiça apontando dois ponteiros para o seu rosto.

Como todo ingrediente que marca presença nesse sopão agridoce chamado Vida, o Horário pode se manifestar tanto em apitos matinais de despertadores quanto reservas em restaurantes, sessões de cinema e tudo mais que, prazerosamente, fazem o tempo passar mais rápido.

Aliás, que horas são?


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