Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

fazendounha
por Fabio Lattes

Tudo começou com uma olhada no espelho, que determinou o fim do cabelo.

O momento que a vaidade e o orgulho próprio são mandantes da degola a tesouradas dos fios de cabelo revolucionários, que se recusam a continuar compondo a diária procura de estar bem para o sexo oposto – ou você mesmo.

“Preciso cortar, tá foda.”. A hora do abate das madeixas é sempre sem volta. Quando essa decisão é tomada, a fome é por um lugar numa cadeira giratória com uma toalha de plástico que pouco adianta para evitar de te deixar pinicando o resto do dia.

E juntando a fome com a vontade de comer, saí no glamouroso horário de almoço da Vila Olímpia a procura de um lugar para saciar meus roncos de vaidade.

Fachada nova, recepcionista nova. Ao invés de Neide, Neusa, ou alguma variante do “Nê”, fui recebido por uma plumosa e colorida Drag Queen.

- Opa… Mudou o nome daqui?
- Mudou, querido!

O novo lugar prestava homenagem à Santíssima Trindade Musical Gay. Sentada a direita de Madonna, toda poderosa, está Rosana, com seu one hit wonder “Como uma Deusa”. E logo ao lado, a atriz e semi-travesti Cher, que emprestou o seu nome ao salão.

E é no “Salão Cher” que entram as unhas.

Nada de cabelos pelo chão, ou mulheres lado a lado com um abajour na cabeça fofocando sobre a inédita novela que acaba em casamento e é gravada no Leblon. Mas manicures. Muitas, milhares! Um batalhão delas perfiladas em suas cadeiras, lixando, pintando, esmaltando unhas de mãos e pés com separadores de madeira entre os dedos.

Um cabelo cresce, perde o corte, entra na orelha. Mas e uma unha? Unhas sujam, emprestam faixas brancas às pontas dos dedos. Mas mulheres tratam elas com o mesmo cuidado que tem com suas madeixas, com a diferença que são cuidadas semanalmente, por algo em torno de 15 reais.

Se não tiver roxo esverdeada, comprida e cheia de terra ou em carne-viva de tão roída, homens simplesmente não reparam. Melhor: não se importam.

“Eu me visto para as mulheres e me dispo para os homens”, diz a citação.

Vale quase o mesmo para as unhas femininas. Uma unha de esmalte na cor certa e uma cutícula na medida é como a lojas Marisa: de mulher para mulher. Ela completa sua beleza, mesmo que só para ela (ou elas). Um item essencial para completar uma bela roupa, para uma bela ocasião. Não existe vestido de festa chique sem unha feita antes.

Por isso, sua grande contribuição para agradar o sexo oposto está na auto-estima, no se sentir bonita, gouxtosa. A metade da receita para a irresistibilidade de uma mulher charmosa.

Homens tem poucos recursos para ficarem bonitos além do que sua mãe ou a mãe natureza lhe deram. A roupa certa, a barba, o cabelo, compondo um certo estilo. Do que os olhos vêem, limita-se a isso. O resto é combinado com seu papo, seus gostos e os demais itens de personalidade que compõe o mojo para aquela que lhe dedica algum suspiro.

Mulheres tem superfícies de pias e armários abarrotados de truques e alternativas. Decotes, estojos de maquiagem, diferenciados cortes e tratamentos de cabelo, vestidos tomara-que-caia, saias… e unhas.

Belas, reluzentes, esmaltadas e lindíssimas unhas.


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havaia
por João Guilherme Pires

Tudo (sic):

“Uma agressão frontal às famílias brasileiras e aos valores Cristãos que deveriam nortear nossas ações, um comercial de sandálias mostra uma vó instigando à neta à promiscuidade e sexo sem compromisso. Nós conhecedores que valores Cristãos não mudam, diante dessa deturpação agressiva , não podemos ficar inertes e deixar sem resposta, é um verdadeiro lixo demoníaco que é jogado em nossos lares. De hoje em diante esta marca de sandálias não entra mais na minha casa e convido a todos cristão a fazer o mesmo boicote. Fiquei me perguntando o por que uma atriz de idade se prestou a este desserviço às nossas famílias, teria sido só pelo dinheiro? Ou realmente ela daria aquele nevasso conselho à uma neta. Não podemos mais deixar a perniciosa mídia destruir valores morais e éticos, nós Cristãos podemos reagir, não podemos mais admitir que a educação de nossos filhos tenha influencias tão avassaladoras e degradantes.”

“Infeliz este comercial, os avós devem passar valores que sirvam para a educação de seus netos e não torná-los vulgares, incentivando-os a ter relacionamentos baseados em sexo. Lamentável!”

“Não poderia deixar de manifestar minha indignação e protesto ao que demais absurdo e nojento adentrou em minha casa, neste dia de hoje, através da tela da tv, ou seja, um comercial: pobre, mesquinho, sem coteúdo e promiscuo. Não acredito que uma marca como “HAVAIANAS” conceituadíssima no mercado, com poder de MARKETING influente e atrativo à um público consumidor influente, possa ter aprovado a exibição de uma baixaria de tamanha falta de criatividade.Tenho pena dos atores, que sobrevivem destas imundísses.Vou protestar mais ainda:NÃO COMPRO MAIS HAVAIANAS.Divulgar e protestar absurdos como este, é o dever de todos que zelam pelo mínimo de moral, que ainda possamos ter.”

“Não bastaria as novelas, os reality-shou, as lucianas gimenes da vida para fazer apologia a promiscuidade, agora vem a havaiana que sempre foi tendenciosa em suas publicidades apelativa e desrrespeitosa com a familia brasileira, com este verdadeiro atentado aos valores morais. Será que o mundo se degradou tanto que até para se vender um produto utilitario e com qqualidade comprovada como havaianas nescessita deste tipo de comercial nocivo à formação dos jovens e adolecentes.”

“eita propaganda ridícula… onde já se viu uma avó incentivar uma putaria dessa.”

“Sempre soube que as Havaianas, como marca, é sinônimo de qualidade. No entanto, estou pasmo com esse comercial da avó incentivando a neta a promiscuidade. Não gostaria que minha sogra aconselhasse minha filha de 13 anos a conseguir sexo fácil e sem compromisso. Antes disso, gostaria que os mais velhos, ensinassem aos adolecentes de forma geral, os verdadeiros valores éticos e morais do sexo baseados nos princípios cristão. Já não basta a imagem que nosso país tem lá fora de uma nação corrupta e que possui um dos maiores índices de prostituição no mundo? Como mudaremos essa imagem lá fora, se não conseguimos transformar nossas ações que incentivam tais práticas internamente? Fica aqui meu protesto a esse comercial hediondo…”

“Sinceramente, alio-me aos demais com relação aos comentários aqui postados. “Eta Brasilsinho bom de passar um talo de fosco como já diria meu pai.” É um pouca vergonha. E as famílias brasileiras? e a moral? e a ética? que campanha exdruxula. Merecemos coisas melhores. Essa foi o cúmulo. E essa senhora nem tem vergonha na cara, uma senhora velha, tá certo, ganhou o dinheirinho dela prá fazer o comercial, mas eu sendo parente me envergonharia total. Registro aqui meu protesto e repito: HAVAIANAS NUNCA MAIS!”

Fiquei um tempo pensando no título desse texto. Não é possível que haja tanta gente azeda no mundo. Ou melhor, no Brasil. Porque em outros países, como Inglaterra ou Argentina, vemos uma publicidade que lida com as coisas do dia-a-dia de forma direta ou provocante. E convenhamos: sexo é rotina. Se você não concorda, tá precisando dar uminha.

Não acha? Oras, vamos começar do começo: todo mundo existe por causa do sexo e é claro que você sabe disso. Deveria ser a coisa mais natural do mundo, quiçá tanto quanto comer, dormir ou ir ao banheiro, coisas que são feitas desde que o homo sapiens é homo sapiens. E assim como banheiros e cozinhas, ambientes projetados para essas atividades primordiais, poderíamos perfeitamente ter o aposento do sexo, com acessórios e móveis criados especificamente para esse fim. Sei lá porque não temos. Taí uma idéia que, assim que dispor de dinheiros suficientes, vou tentar colocar em prática.

Mas voltando ao nosso dia-a-dia. Caceta, sexo está em todos os lugares. Ou é paranóia minha? Por exemplo: Manequins de Vitrine. Por que sempre tão atléticos? Barrigas sequinhas, peitinhos empinadinhos, músculos salientes. Porque não um magricelo, um baixinho ou uma gordinha? Tudo para os clientes acharem que, neles, as roupas vão ficar iguaizinhas e, com isso, terão melhor aproveitamento na sedução do sexo oposto.

Outro: roupas de trabalho. Num ambiente em que todas as relações deveriam ser profissionais, o que está fazendo aquela recepcionista com camisa decotada? Ou aquela advogada com calça social justinha? Se não tivesse sexo na jogada, a moda teria pendido para modelitos totalmente caretas, folgados, confortáveis e práticos. Salto alto não é prático.

E televisão? Essa eu nem precisava mencionar, mas vou. Reforça meu ponto de vista. Reality show só vale se tiver alguém com silicone e muita cena de biquíni. Novela da Globo sempre tem cenas quente. Faustão é um gordo enfeitado por dançarinas gostosinhas. Zorra Total é batata.

Isso sem contar Internet e os milhares de sites de putaria, as festinhas da faculdade, a literatura, o cinema e as demais artes que se valem do tema, e assim por diante.

Somando tudo, trabalho, entretenimento e o caminho entre um e outro, podemos concluir que somos expostos quase o tempo todo ao sexo ou à atributos periféricos.
E não vejo ninguém reclamar disso.

Aí uma velhinha estrela um comercial, fazendo uma piada a respeito de sexo e a negada se revolta? WTF?

E pera lá: desde quando avós são alicerces da moral e da ética? O Berlusconi é avô e vive aprontado. Pelado. Aquela velhinha que passava pó pro Johnny (o do filme), até onde eu sei era avó também. E o Sarney? É avô incontestável e vive de sacanagem com todos os brasileiros. Pouquíssimos reclamam.

Enfim, pra também não me estender demais, apresento já minha resolução para 2010. Estou me empenhando em virar poliglota afim de expandir meu leque de possibilidades de fuga para quando a caretice, a hipocrisia e a “castidade” forem insuportáveis. Afinal, do jeito que as coisas andam, como diz um colega de firma, logo logo o Brasil vai ser um Irã dominado pela Igreja Universal. E neste dia eu estarei longe, num clube de strip, numa praia de nudismo, num coffee shop de Amsterdam…


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mecenato
por João Vicente

Outro dia um grande amigo, em um desses bons papos que acontecem na mesa do bar, comentou para mim a respeito de determinado artista que havia se vendido, pois gravou uma música-tema para uma propaganda de cachaça. O artista em questão é Seu Jorge, que criou a canção “Eterna Busca”, até onde sei, para a Sagatiba. Com todo o respeito à perspectiva de meu companheiro, a conversa deu frutos interessantes e achei válido retratar um pouco do diálogo aqui.

Para começar, é de praxe a crítica a quem “se vende à máquina capitalista” porque estrelou alguma propaganda, usou marcas em troca de patrocínio ou, em casos mais extremos, como o de Seu Jorge, criou uma canção exclusivamente para uma marca. Na opinião destes críticos, haveria algo que mais macularia a arte em seu estado puro senão a criação em prol da mera venda de algum produto? Há casos clássicos de diferenças ideológicas a respeito destas questões, como a briga de Jello Biafra com sua ex-banda, o Dead Kennedys, em virtude da refutação do vocalista em permitir que uma música da banda fosse utilizada em um comercial da grife Levi’s. Para quem não está familiarizado, o Dead Kennedys foi uma renomada banda da cena do punk rock californiano dos anos 80, com letras politizadas que caminhavam da sátira à anarquia.

Acredito que exista validade no argumento, pois entendo a perspectiva de que não seria interessante vincular a posição de protesto da banda a uma marca mundial de roupas. No entanto, me pergunto se esta vinculação significaria, necessariamente, uma contradição ideológica à postura da banda. Em outras palavras, questiono se a vinculação de uma banda a uma marca ou até mesmo a criação com fins direcionados a venda de um produto são essencialmente uma afronta à pureza artística.

Cito, por exemplo, o caso recente de Mallu Magalhães. Em uma entrevista a um programa de televisão, a compositora citou a ampliação das possibilidades de produção de um artista por meio do atrelamento de marcas e produtos ao trabalho desenvolvido, em detrimento do contrato com gravadoras. Ou seja, na opinião de Mallu, existe, hoje, a possibilidade de distanciamento do esquema industrial engessado das grandes gravadoras. Como se sabe, o novo expoente da música brasileira associou suas canções a marcas como Vivo e a mencionada Levi’s. Na perspectiva deste que vos escreve, este novo modelo de mecenato abre a possibilidade para que um trabalho artístico verdadeiramente independente seja desenvolvido, pois permite com que o artista decida os rumos de suas criações, longe da vontade dos figurões das grandes gravadoras.

Além disso, vale lembrar que grandes obras da humanidade foram possíveis somente mediante a adoção do regime de mecenato. Por exemplo, a Capela Cistina de Michelângelo foi comissionada por mecenas, além de obras de Leonardo da Vinci, Shakespeare e Camões. Seria possível diminuir os feitos destes artistas, de alguma maneira, pelo mero fato de terem sido encomendadas por reis ou figuras que o valham?

Certamente, se vender para uma gravadora, que induz o artista a criar algo que não corresponde a sua genuína vontade, pode ser algo que corrompe a pureza da arte. Mas utilizar os recursos da alguma empresa para poder bancar suas criações me parece algo plenamente sensato, embora, em um primeiro olhar, pareça ser a “venda” de um artista. Não há dúvida de que no episódio de Seu Jorge a empresa mecenas teve impacto direto na criação. Porém, mesmo neste caso, não sei se o fato da canção ter sido encomendada constitui-se em um demérito para sua qualidade, enfim, musical. Além disso, não cabe a mim julgar se o resto das canções de Seu Jorge são comerciais ou não, mas, sem sombra de dúvida, o patrocínio da marca mencionada abre a possibilidade para que este compositor faça o que bem entender com todo seu trabalho remanescente. Seria como abrir mão de um pouco para poder ganhar muito mais depois. Acredito ser razoável admitir que os Los Hermanos só conseguiram bancar sua arte fortemente autoral após a explosão do hit “Anna Julia”. Assim como Roberta Sá deu as caras na indústria musical por meio do programa de televisão “Fama”, e hoje em dia desponta com uma MPB bem longe da mesmice midiática.

Em uma sabatina do programa Inside the Actor’s Studio, o diretor Francis Ford Coppola foi perguntado se para mudar o mundo era necessário seguir o rio para, depois, tomar a direção contrária. Coppola afirmou: “A resposta é provavelmente ‘sim’, é um equilíbrio delicado e você deve tentar acompanhar. Acompanhar o suficiente para ganhar experiência e algum grau de poder. Porém, você deve tentar então, talvez, manter-se verdadeiro ao que te inspirou em primeiro lugar, para que, uma vez com este poder, possa utilizá-lo de maneiras que nos ajudarão a caminhar em direção a um novo mundo que gostaríamos de construir”. E acaba sua intervenção com um chamado: “Saiam e mudem o mundo com arte!”. Consoante aos ditos de Coppola, creio que o trilhar de qualquer caminho contrário ao senso comum tem como boa companhia a paciência e o equilíbrio.


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brigastreet
por João Vicente

Vez ou outra ouço relatos de amigos sobre alguma briga que se deu em uma balada, ou, em vezes ainda mais raras, testemunho eu mesmo algum quebra-pau. A raridade dessas ocorrências é, de certa maneira, algo novo para mim, pois cresci em uma cidade onde uma balada sem briga era, estranhamente, a exceção. E foi com esta mesma estranheza que percebi a quase inexistência de episódios do gênero nos lugares que comecei a frequentar em São Paulo, em face de minha experiência passada. Certamente não julgo a cidade inteira, em sua noite, como uma ilha de pacifismo, mas em casas onde há boa música e boa companhia, estes elementos parecem mais importantes do que afirmar uma identidade pequena por meio da agressão.

Considero razoável afirmar que este planeta possui mais violência do que as pessoas que vivem nele gostariam de suportar. Quando um indivíduo sofre um assalto, é vítima de uma violência com a qual não gostaria de lidar. Nos momentos em que alguém vive sem o alcance do que alguns poucos têm, sofre a violência da desigualdade monstruosa deste país. Na ocasião em que há pessoas com fome, vivem uma violência que ser humano algum jamais deveria passar diante da abundância que a sociedade em que vivemos provê – mas não compartilha.

Diante da vasta violência não escolhida, há os sujeitos que elegem uma balada como palco de um vale-tudo sem juiz – creio eu, com a intenção de virar foco de uma platéia, infelizmente, às vezes, interessada. Aliás, não sei quem tem motivações mais questionáveis, a platéia que se interessa por esse tipo de espetáculo na balada ou os protagonistas da rinha. Fato é que, diante da escolha dos sujeitos, é feita uma escolha por mim. Pois eu não sei se o alvo de quem iniciou a briga merecia ser alvo. Não sei se o alvo escolheu sua condição em algum momento, fazendo algo que não deveria (embora eu considere Mahatma Gandhi, com sua luta pacífica, muito mais inteligente do que alguém clamando por “justiça” na balada porque alguém beijou a namorada de alguém ou algo do gênero). Independentemente dos motivos que levaram à escolha do sujeito que procura a briga na balada, eu não escolhi lidar com isso. E, no entanto, sou impelido a me preocupar com a situação.

Como a psicologia cognitiva sabe, nossa atenção tem limites, temos recursos limitados com os quais lidamos com os estímulos ao nosso redor. Em uma balada, quero prestar atenção na música que me agrada, no papo dos bons amigos, na bela dose que reside em minhas mãos, porém, subitamente, sou obrigado a destinar parte de meus recursos limitados de atenção para uma briga qualquer. Preciso me preocupar se eu ou alguém conhecido vai acabar levando uma inadvertidamente. Preciso abrir espaço para o segurança delicadamente dissuadir as figuras conflituosas. Enfim, preciso lidar com uma violência que não existiria se alguns poucos não a escolhessem. E, como dito, diante de tanta violência de certa maneira não escolhida, uma briga de balada não justifica meio joule desperdiçado de energia.

De volta à cidade onde cresci, não sei dizer com exatidão por qual motivo há esta diferença entre a frequência de brigas em diferentes baladas. Como disse, certamente não é a cidade que define o número de ocorrências, mas talvez a falta de opções leve a pessoas com todo tipo de intenção (inclusive brincar de violência) a estarem nos mesmos locais. Enquanto que em um lugar de maior pluralidade, aqueles interessados por uma balada com boa música, vão até lá pela boa música e isto é suficiente, em detrimento da violência que é capaz de entreter outros. No fim das contas, há espaço para todos, desde que o respeito ao espaço de cada um prevaleça.


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fubabeijo
por Fabio Lattes

Aron diz:
e ela falou q sim! q me mandaria msgs amanha!
Aron diz:
krAi…

Fuba diz:
ah entao relaxa cara
Fuba diz:
esse tipo de ansiedade é normal

Aron diz:
mas nao falou com “!”
Aron diz:
AHHauahuahua
Aron diz:
eh eu sei
Aron diz:
eh q gostei do beijo dela

São de diálogos assim, como o que acabei de ter com esse grande amigo com quem vos copio e colo, que vivem os recém-flechados pela paixão. A ansiedade de quem acabou de dar o primeiro passo para um futuro incerto como o pedido no almoço terça que vem.

Um pequeno beijo para um homem, um grande encontro entre lábios que pode ser o primeiro de muitos.

Ou não. Tudo que o primeiro beijo conclui, entre meses, semanas ou mesmo minutos de xavecos e trocas de olhares dá lugar ao inicio de um novo ciclo, repleto de expectativas. E normalmente começa nos dias que seguem o feliz momento do gol, de celular na mão, teclando e re-teclando um simplório SMS que diz “gostei de ontem, viu” da maneira mais cool e blasé possível.

A satisfação e alegria de ter tido o seu interesse selado com saliva e selinhos como “mútuo” dá lugar a um turbilhão de expectativas. Casos antigos vem a tona, com os erros cometidos passando como um filme da “Sessão das Ex”. E nessa hora, entra em campo a busca pelo mais difícil dos equilíbrios, dono de dois pontos extremos: demonstra o que sente, e ganha a textura de um pentelho grudento ou limita-se a falta de ação e congela-se num grande bloco de mané?

O grande problema é que o quanto uma paixão encanta e provoca deliciosos devaneios sorridentes, ela nos cega do bom juízo. Não existe apaixonado blasé e cool em suas mensagens de texto. Esse tipo não passa de um admirável Zé ou John Mayer em carne e osso. O original se atrapalha, digita errado e verifica a cada dezena de minuto se seu catastrófico SMS teve resposta.

Numa paixão, a alegria do coração é a ruína do cérebro. Pensa-se em tudo, analisa-se demais todo e qualquer sinal de interesse ou rejeição, sempre com o pé atrás da bagagem dos fracassos amorosos antigos.

- “A amiga foi muito simpática, isso é bom! Não é?”
- “Se despediu no e-mail com ‘bjs’ e não ‘beijos’”
- “Ela não falou com ‘!’”

“Deixa rolar, deixa fluir. Seja você mesmo, é como melhor funciona”. O conselho que te faz querer voar por cima da mesa e sacudir o pescoço do seu amigo, gritando: “É por que não é com você, seu puto!!”, infelizmente é bastante verdadeiro.

O melhor a ser feito é esquecer suas aulas de semiótica e não tentar interpretar tudo que chega aos seus olhos e ouvidos, atendo-se somente ao que é óbvio e claro, como um “É mesmo, lá deve ser ótimo”. As chances de encontrar algo de realmente válido naquelas mil hipóteses que você cogita por segundo não valem o estresse que você passa procurando por elas.

É preciso lembrar é que, se a flecha for de duas pontas, a ansiedade de um lado repete-se no outro. Logo, não vai ser uma exclamação a mais ou a menos que vai fadar o seu insucesso. Se ambos estão interessados e gostaram do que viram bem de perto, basta a intenção. Basta que a mensagem chegue.

Aron diz:
Ela é demais meu merda! To gamadaumm… hihi! hahahaha


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