Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

amizadefuba
por Fabio Lattes

Nos idos de 1990 você cantou em falsete - que eu sei - a seguinte canção: “Amiiiiigo é coisa pra se guardaaar, no lado esquerdo do peeeeito”.

Terminado o coral com o sinal de gralha eletrônica que anunciou o recreio, você e o coleguinha ao lado saíram em disparada para mais uma tarde correndo atrás de bolas de futebol e o galho mais alto da árvore. Pronto. Estava instaurado o primeiro caso de amizade nessa vida que dava seus primeiros passos, muito possivelmente calçando ki-chute. Independente do tênis ou se você era menina e gostava de bonecas, uma coisa é certa: a tia da sua escola acertou em cheio ao fazê-lo cantar este belo verso do Milton Nascimento.

Que graça teria essa vida sem amigos? A testemunha ocular dos seus momentos, melhores ou não. O ombro ao lado que sai junto na foto e confirma histórias para contar de cerveja no copo ou neto no colo. Um cúmplice na cola do colégio e na indicação para um emprego. Definições são muitas, mas nada resume melhor o valor de uma amizade do que a seguinte epifania cinematográfica, do filme Na Natureza Selvagem:

“Happiness only real when shared”.

Chame de instinto, de carência, de uma evolução do infantil medo de escuro, mas é de nossa índole querer ter alguém para compartilhar experiências nessa vida que parece ser eterna enquanto dura. Ou você realmente acha que premiações “com acompanhante e tudo pago” estão a toa por aí? São provas concretas, estampadas em cupons de sorteio pelo mundo afora. Levar um amigo na aventura é uma exigência tão clara quanto querer que o carro venha com volante.

E assim como o jeito para se manobrar numa baliza, homens e mulheres levam suas amizades de maneiras diferentes. Ao descascar a cebola e separar as camadas entre os sexos, encontramos disparidades entre a turma “dos cara” e as “meninas” (fato: mesmo que tenha 78 anos bem vividos, uma mulher sempre irá se referir às suas amigas como as “meninas”).

É uma diferença que vem de fábrica, junto com os cromossomos e a opção de ou usar sutiã ou ficar entre rouco e estridente quando chega a puberdade. E como um exemplar da metade que viveu a fase da voz estranha e das Playboys escondidas na gaveta das camisas de time, compartilho em parágrafos a seguinte opinião.

O homem nasce, cresce, simula que se reproduz e acha que vê a morte no fundo de um vaso sanitário, depois de um exagero de destilados em alguma festa open bar. E em todo esse processo, lá está ele, o seu amigo. O parceiro. (o termo “brother” veio mais tarde, com a chegada dos surfistas de final de semana aos círculos de amizade). O cara que te acompanhou na festa, conversou com a amiga exclusivamente “gente boa” para lhe dar tempo de tentar algo com o seu bem-querer. E por fim, lhe consolou sugerindo afogar as mágoas, fechando o ciclo ao te apresentar para a privada mais próxima.

Para o homem a amizade é uma instituição tão sagrada quanto a turma que ele almoça junto de domingo. E se o domingo tem data, o resto da semana tem outra: a cerveja com os amigos. Tão obrigatória quanto depilação íntima e felizmente muito menos dolorosa – coisa que somos mais meninas que muita mulher para suportar.

A mesa do bar é um divã de plástico amarelo. Fala-se sobre tudo, peitos são abertos entre rodadas e rodadas do gelado liquido dourado. As chances de aumento, os colegas de trabalho que pegariam com toda certeza do mundo. As atualidades do mundo, quem posou pelada – e se vale conferir. E por fim, as notícias do futebol, boêmia adentro.

Mulheres também se reúnem, claro. Armam happy hours e “girls night out” com sessões de roupa e maquiagem na casa de uma, sujando coqueleteiras e liquidificadores com mojitos e batidas perigosamente saborosas. Mas não com tanta frequência e, principalmente, não atribuindo tanto valor ao encontro quanto o homem.

E é aí que – penso eu – mora a principal diferença entre as amizades. Que fique bem claro: mulheres também tem suas irmãs, suas melhores amigas e parceiras de guerra. Mas não constroem o mesmo altar da amizade que os homens, com um São Beto ou um São Pedrão para ser devoto.

Um melhor amigo para o homem beira um estranho homossexualismo enrustido. Com tapas na bunda, socos no ombro e xingamentos à mãe entre um único aperto de mão. Chegam a declarar saudades. A darem bronca. Vivem um verdadeiro romance entre brothers – o chamado “bromance” definido no ótimo Eu Te Amo, Cara.

São sagrados. Condição que se estende às suas namoradas e senhoras. É fato: a namorada de um grande amigo desenvolve um pênis no momento que ele declara que por ela penduraria suas long necks. O amigo pode achar gostosa, atraente, chega a compartilhar essa informação. Mas a traição desse valioso pacto é uma atitude mais mal-vista que encoxar a mãe na fila da hóstia.

Está escrito na página 12 do “Manual do Melhor Amigo”: o homem que pegar a namorada do outro vestirá para a turma toda a mini saia rosa da hostilidade.

Outra ressalva: mulheres também respeitam o namorado alheio. Mas pela ausência do referido Altar Masculino à Amizade, são mais dispostas a esquecer essa condição quando o coração manda ou a carne estremece. O grande Chris Rock exemplificou isso muito bem com duas citações:

- “Puxa a namorada do meu amigo é sensacional. Bonita, gente fina… Quero achar alguém que nem ela!”
- “Nossa… O namorado da minha amiga é sensacional. Bonitão, gente fina… Quero ELE!”

Talvez seja a competitividade feminina, o fato de vestirem-se para outras mais que para agradar outros. Ou a ausência do assunto “futebol” para quebrar gelos e transpor barreiras entre o nome e o apelido. Mas mulheres primeiro se encaram como rivais, para depois tornarem-se colegas, e possivelmente, amigas.

Para um homem, do plantio à colheita a amizade parece ser mais fácil de dar algum fruto. Preferencialmente cítrico e verde, para ser cortado na tábua ao lado da churrasqueira.

O fato é que para saborear os doces e amargos desse doido drink chamado vida, a amizade tem sem dúvida a mesma importância que o amor. Por isso, homem ou mulher, o segredo é ter sempre borboletas no estômago e nos ouvidos, alguma música que goste.

Se não for aquela do Milton Nascimento, que seja outra. Algo como:

“I get by with a little help from my friends
I’m gonna try with a little help from my friends…”


jonis3
por João Guilherme Pires

O dia começou como tantos outros: tomou um café na copa com as mesmas pessoas de sempre, acessou a Internet e conferiu os mesmo sites de sempre e checou seus e-mails para receber mensagens diferentes mas que pareciam as mesmas de sempre, inclusive aquela do namorado, enviada religiosamente todo dia de manhã, dizendo que a amava. No sigilo que só a solidão oferece, deletava muitos destes e-mails sem ao menos ler. Não considerava isso desprezo. Apenas tinha certeza de que era amada e não precisava ser lembrada disso a todo momento.

O expediente seguiu como deveria seguir até a hora do almoço. Após uma saladinha no América com as meninas, volta para encontrar, em sua Caixa de Entrada, uma mensagem inesperada. Era Luís, antigo colega de faculdade. Embora não se vissem com frequência, faziam questão de manter contato. Houve inclusive uma época em que ficaram realmente próximos e, por diversas vezes, seja pelo excesso de álcool ou de hormônios, elevavam essa proximidade a níveis milimétricos, ficando separados apenas pelas distâncias de suas roupas.

“E aí sumida? Quando vamos tomar uma cerveja?”

Adorou receber a mensagem, mas não respondeu. Gostava igualmente de se sentir desejada e ocupada, então optou por reprimir a vontade e postergar a réplica. Imediatamente lembrou-se de Marcelo, sentindo um misto de comiseração e carinho pelo namorado dedicado. Mas o e-mail de hoje ela não havia deletado, considerou, tendo inclusive caprichado nas vogais de modo a expressar a paixão das primeiras vezes.

Aliviou a consciência mandando um SMS estratégico: “hmmmm, vontade de dar pra você. Vamos num motel hoje?”.

Ora, mas não era ela, Cláudia, que tinha trabalhado até tarde no dia anterior pois queria ver o Especial Hitchcock que ia rolar à noite Telecine? Perguntou-se o que poderia ter despertado nela um tesão assim tão repentino, mas preferiu não responder.
Em algumas coisas é definitivamente melhor não se pensar: o surgimento do universo, o que existia antes do Big Bang, o que acontece depois e, aquilo que estava pensando naquele exato momento.


mulherkripto
por Fabio Lattes

O cara é de aço. Tem olhos com laser que abrem buracos em paredes e uma visão raio-x para passar por roupas e conferir conjuntos de lingeries. Zunindo pelos ares, ele rasga céus de brigadeiro abrindo caminho entre granulados de nuvens. Salva o mundo como quem confirma presença numa reunião pelo outlook, e ainda faz tudo isso vestindo um colant azul e uma sunga vermelha por cima.

E mesmo assim, tão super que é, pode perder todos seus poderes com uma mísera pedra esverdeada lá do seu planeta. É deixar uma pedrinha dessas por perto que nosso heroí não voa, não ergue carros, não salva o dia se trocando em cabines telefônicas.

Pois é assim com homens. Não importa se é o mais sangue frio dos conquistadores modernos, que gerencia suas mulheres como um executivo administra um negócio, daqueles que demitem sem dó um pai de família. Um e-mail bonito ali, uma graça via SMS aqui, um telefonema com um gracejo acolá e pimba: usufruem uma lista de mulheres a espera de um telefone no dia seguinte, que provavelmente será substituído com uma ligação para a próxima conquista.

Recados de batom no espelho, surpresas com dias de planejamento, declarações sussuradas no ouvido… Nada e ninguém os balança ou induz a qualquer erro comum a um apaixonado. Ninguém, há não ser uma pessoa: a mulher kriptonita.

Todo homem, sem exceção, tem pelo menos uma mulher que mexe com seus sentidos e bambeia suas pernas quando aparecem, seja numa moldura de MSN ou ao vivo e a cores numa quinta a noite. Uma ex-namorada, uma paixão platônica, um caso mal resolvido que para todo sempre ficou marcado num coração que parece de pedra.

Elas são atemporais. Não importa se foi num baile de debutante, com ela indo embora da sua vida e da festa no carro de um primo mais velho. O tempo perde feio para a intensidade de um amor que um dia acertou em cheio. O reencontro pode acontecer 10, 20 anos depois. Será a mesma sensação quando ele se viu pela primeira vez completamente rendido por sua paixão.

A presença da sua kriponita faz um homem perder tudo que a vida amorosa até então lhe ensinou, todo seu encanto ensaiado, seu tão acertivo charme de sempre parecer que não se importa, com um sorriso misterioso. Tudo vai por água abaixo, como as lágrimas que um dia rolaram pelo seu rosto, justamente por ela.

A mulher kriptonita sabe do seu encanto. Do seu poder. Sabem – ou sentem - que tem total controle, como um marionete tem dos seus bonecos. E qualquer tentativa de disfarçar só deixa mais claro que ele se altera com sua presença. Aparecem para nos testar, para por a prova nosso poder de regeneração quanto a pior das dores – a de um coração partido.

Elas estão por aí, nas esquinas da vida. Como a última barreira, o último vilão que todo homem (super ou não) precisa vencer para mais uma vez ser o heroí do dia e salvar o mundo.

O seu mundo.


iceberg2
por João Guilherme Pires

O esforço para sair de seu Peugeot 307 com naturalidade teria feito Cláudia pensar que estava protagonizando alguma cena de Friends, um de seus seriados favoritos. Contudo, a consciência de que seu movimento tinha como objetivo apenas pegar o mesmo elevador que Fábio não a deixou pensar em mais nada.

Eram 10h12 e o hall estava vazio. Após um bom dia não mais do que trivial, posicionou-se à direita, ligeiramente à frente de seu interlocutor e imediatamente apertou o andar que seria destino de ambos. Sentia os olhos de Fábio percorrendo as convexidades e concavidades de seu corpo. Ou julgava que sentia, pelo desejo do fato?

Não sabia o que se passava em sua cabeça, mas resolveu tirar a prova. Encostou-se na parede de elevador, quebrando suavemente o quadril num movimento enaltecia suas principais curvas. Agradeceu ao destino por ter escolhido a calça branca e, ao mesmo tempo, virou-se para mexer em algo que não existia em sua bolsa. De soslaio, viu que Fábio mexia tranquilamente em seu Blackberry, sem nenhum traço de interesse aparente. A frustração que sentiu denunciou: havia definitivamente algo de errado.


amanha
por João Vicente

Noel Rosa morreu aos 27 anos. Até onde me consta, entre seu nascimento e o fim de sua vida, foram escritas mais de 300 canções e, até onde considero, um grande número destas eram dotadas de brilhantismo e inventividade únicos. Bradley Nowell, ex-vocalista da banda Sublime, morreu aos 28 anos. Durante sua vida, dentre suas realizações, deixou três belos álbuns que ajudam a constituir o legado de sua banda. Kurt Cobain foi encontrado morto aos 27 anos. Compositor e letrista do Nirvana, também deixou – ao sabor do gosto intrínseco a cada um – obras-primas.

Alguns dias atrás, estive pensando nestas pessoas que produziram tanto, e tão bem, e morreram tão cedo. E, de uma maneira que só o acaso consegue trazer, também tive que pensar sobre a efemeridade na vida há alguns dias. E, por fim, também acabaram por vir ao meu encontro pensamentos sobre como é necessária, nesta vida, alguma urgência. A confluência dessas ideias parecidas me obrigou a tentar entender o que elas têm, de fato, em comum.

Canta o Dead Fish que “há urgência em estar vivo”. E acho que é trivial só perceber isso quando se lembra que um dia se vai morrer. Afinal, se há um bom motivo para fazer alguma coisa que preste, e logo, é porque ninguém vai estar aqui para sempre. No entanto, mais do que fazer alguma coisa, há em todos um potencial imensurável como ser humano. Há a consciência de que somos capazes de construir o que não se pode imaginar, desde que o trabalho necessário seja empreendido. Mais do que isso, a potencialidade de seres humanos organizados, em prol de um objetivo comum, é inspiradora.

Porém, essa mera consciência de que conseguimos realizar nem sempre é suficiente para mover as pedras necessárias para construir o caminho. E sempre que penso nisso me lembro de uma frase de Heráclito que diz, com variações, que “todo animal que caminha é impelido ao seu objetivo à cacetadas“. No caso, nada melhor do que a iminência da morte como uma bela cacetada para mexer os ânimos.

No fim das contas, isso me parece nada mais do que o velho “carpe diem”, que sofre os problemas da habituação na sua existência. Ouve-se tanto a respeito, que seu sentido essencial, nas entranhas, aquele que toca a alma, parece se perder. Acho que todo mundo gosta da idéia de carpe diem, mas o que eu nunca tinha entendido é que para se colher o dia de verdade, é preciso estar inteiro, é preciso estar com aquele ímpeto que só é trazido quando estamos em frente do que consideramos nossos grandes feitos. É preciso ter esse ímpeto todos os dias, em todos os segundos. Como citei alguns textos atrás, diria Fernando Pessoa: “Para ser grande, Sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a Lua toda / Brilha, porque alta vive”.

Imagino que as criações de Noel Rosa, Bradley Nowell e Kurt Cobain só foram possíveis porque, em algum momento, eles sentaram-se ao violão e ficaram inteiros, juntaram todo seu ímpeto em fazer uma boa canção. Mesmo que bebendo, fumando ou injetando, em algum momento a criação surgiu como uma manobra do fluxo natural, mas que não seguiria seu curso se a vontade dos criadores não fosse soberana. Se não houvesse alguma urgência em criar, um ímpeto que transformasse a matéria bruta em pedra lapidada.

E ainda bem que essas, e muitas outras pessoas, reuniram e deram foco a seus ímpetos. Pois pudemos ter contato com essas grandes criações, feitas em tão pouco tempo. Essas pessoas provam que muito pode ser feito, desde que se faça. Sei que hoje ainda há tempo de se reencontrar a urgência. Pois então, a hora é agora, porque amanhã, diria Chico Buarque… amanhã, ninguém sabe.



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