Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

hppy24
por João Guilherme Pires

Com 15 anos, logo após conseguir seu primeiro emprego, Juarez abriu um fundo de previdência privada. Na época ninguém entendeu nada. Precoce esse menino, uns diziam. Esse vai longe, afirmavam outros categoricamente. Já Carmina, sua tia de Avaré, era mais cética: isso é coisa do demônio chamado televisão. Tanta propaganda endoidou o moleque.

O fato é que Juarez não só abriu como, religiosamente, depositava uma porcentagem do seu ordenado lá. Foi assim trabalhando na banca do Toninho, na farmácia do Seu Lafon, no escritório do Dr. Emílio.

- É preciso pensar no futuro -, ele repetia.

Terminados os estudos fundamentais, era hora de decidir sua carreira profissional.

- Vou ser médico.

Surpresa geral na família. Justo ele, que não podia ver sangue e logo desmaiava?

- É preciso pensar no futuro, gente. Nunca vai faltar doente no mundo.

De fato, era uma escolha promissora. E com um mercado estável. Bastava fugir do sangue, oras. Pensando assim, ingressou em uma das melhores universidades do pais e especializou-se em radiologia, para garantir. Nada de sangue, nada de gente. Recebia elogios, boas notas e, o melhor, indicações. Logo estava trabalhando nos melhores hospitais da cidade.

O que o amigo leitor não sabe até agora é que tanta dedicação aos estudos acabou por deixar Juarez afastado de algo essencial para a existência humana: as mulheres.

- É preciso pensar no futuro. Mulher não vai encher minha barriga, vai?

Fosse ele um tipo esbelto, viril, de traços italianos ou nórdicos, quem sabe. Mas Juarez tinha uma fisionomia absolutamente normal, irritantemente convencional. Lembrava, como dizia um famoso pensador, um copo d´água.

Mas felizmente as namoradas vieram. Afinal era inteligente, bem humorado, tinha uma boa grana. E estava para completar seus 30 anos.

Primeiro foi Patrícia, dermatologista do Oswaldo Cruz. Loira, linda, ótima companhia. Saíram muitas vezes e era sempre perfeito. Gostavam das mesmas musicas, tinham a mesma preferência pela culinária japonesa, sonhavam em conhecer o mundo. Isso até o dia em que Juarez foi convidado para o aniversário surpresa de Luíza, irmã de Patrícia. A família toda estava presente. O jantar correu bem. A comida estava ótima. Juarez nunca mais ligou.

Depois veio Edna. Jornalista, inteligente, fazia o tipo mais alternativo e em nada se assemelhava à ele. Ninguém apostava no casal. Todos estavam errados. Ou melhor, em parte. Passaram muitos bons momentos. No meio de tanta diferença, encontraram a própria sintonia. Edna inclusive estava radiante ao finalmente levá-lo para conhecer sua cidade natal, Araçatuba, na ocasião do aniversário do avô. Foi apresentado à toda família, regozijou-se com os comes e bebes, seguiu as regras da boa convivência social. E, na hora do “Parabéns”, enquanto as atenções estavam voltadas para Seu Firmino, que completava 89 anos, entrou sorrateiramente no carro e partiu.

Mas pior ainda foi o caso de Lucinha. Apresentada em uma festa por um amigo em comum, se dizia apaixonada já no dia seguinte. Eram um grude só. Uma paixão de dar inveja – e causar brigas -, em casais já consumidos pelo tempo. Flores, chocolates e outros mimos eram uma constante. E na cama, bom, basta dizer que Juarez aprendeu muito do que sabe com Lucinha. Conta-se que certa feita, passando o reveillon em Trancoso com amigos, os dois foram vistos na área social do hotel duas ou três vezes. Sempre em direção ao quarto.

Tanto amor e felicidade mereciam ser celebrados. Por isso, para comemorar aquele primeiro ano de namoro, Lucinha preparou uma viagem surpresa à Nova York, onde moravam seus pais. Conheceram a cidade, jantaram nos melhores restaurantes, visitaram os principais museus, assistiram à peças da Broadway. Foi em uma delas, inclusive, que durante uma ida ao toalete Juarez chamou um táxi, foi até o aeroporto e voltou ao Brasil.

Alguns achavam que ele era gay. Outros tinham certeza. Mas o fato é que ninguém entendia Juarez. Isso, claro, até ele conhecer Carol. Morena, alta, voluptuosa, de causar torcicolo. Morava dois andares abaixo no condomínio para o qual acabara de se mudar.

Naquele primeiro momento, todo mundo pensava ser esta apenas mais uma das aventuras do nosso protagonista. E, por isso, com data certa para terminar.

Quem diria que, num despretensioso sábado a noite, tudo mudaria. Carol convidara os pais para um jantar em casa, aproveitando a oportunidade para apresentar Juarez. Mesa posta, velas acesas, jazz na vitrola e, para acompanhar, um bordeaux reservado para ocasiões realmente especiais.

Às 8h em ponto chegaram Carlos e Ângela, as esperadas visitas. E, naquele exato momento, não havia mais dúvida: ela era também linda, estonteante, curvilínea como a filha.

Tranqüilo e enfim realizado, Juarez acariciava no bolso do paletó a caixinha com as alianças que tantas vezes carregou consigo, agora certo de que finalmente as usaria. E enquanto isso, repetia baixinho para si mesmo:

- É preciso pensar no futuro, é preciso pensar no futuro.


encontro
por Fabio Lattes

Ser ou não ser, eis a questão. Transar no 1o encontro ou não - vou no tesão ou sigo o “padrão”?

Ó dúvida cruel que assola as mulheres. Ainda mais quando quem está do outro lado da mesa à meia luz vale o lábio mordido após o gole de vinho e a ofegante ideia de usar os pratos como travesseiros e a toalha como lençol.

“O que ele vai achar de mim? Vai me achar fácil? Vai me achar quente? E o mais importante: ainda serei atraente para ele me ligar assim, de repente?”

Uma coisa é verdade: se oferecido, ele será prontamente aceito com o eterno sorriso juvenil que acompanha a abertura de um sutiã. Não existe homem no mundo que recuse sexo, ainda de uma mulher que ele também pensa em jogar na mesa desde o momento que ela entrou no carro e ele elogiou o seu perfume.

Contudo, o dilema a ser respondido é se isto faz com que essa suspirante noite de beijos no pescoço fique somente nela, terminando apagada como a luz que foi acionada para favorecer silhuetas.

Quando a intenção é uma noite, uma cama e só, tal leve preocupação não chega a virar um problema. O mundo dos relacionamentos evoluiu para separar o joio de uma one night stand do trigo de uma noite que a lua parece brilhar sob o olhar besta dos apaixonados.

E é exatamente aí que começa o problema: quando existe um interesse verdadeiro que o primeiro encontro vire o segundo e um buquê de flores depois de uma terça-feira cansativa.

Para um homem, quando seu interesse é genuíno (nesse caso, segue o critério “apresentável para mamãe”) o sexo torna-se a cereja de um bolo feito com nada de marzipã e muito sushi, bares e baladas, com creme de cartão de crédito e mensagens de texto. Um investimento que leva algum tempo e assuntos em comum.

Mesmo hoje, num mundo onde o sexo alcançou seu merecido status de prazer ainda possivelmente separado de afeto, ainda existe espaço para o romantismo.

Pode parecer que não, mas quando afim um homem valoriza sim a evolução natural de um relacionamento. Do primeiro beijo ao primeiro malho que abre botões - nem que tenham acontecido na mesma noite.

É completamente atemporal. Por ser tão bom, tão íntimo e tão desejado, para o homem o importante é que o sexo tenha a sensação de merecido, de conquistado, de que ele não foi mais um. Sejam em horas, semanas ou 500 dias com ela (mentira: 500 dias além de um filme, é muito. Mesmo.)

Mais que ser “rápido”, o sexo não pode ser “fácil”. Um sexo fácil demais pode fazer esse bolo não ter o mesmo sabor. Ou se for pra ter um sabor, somente o gosto daquela cereja que vai no topo. Gostoso, mas enjoativo e facilmente substituível por outra mais tenra e vermelha.

O fato é que não existe regra ou cartilha a ser seguida para acertar a hora de esticar os braços e apertar o interruptor enquanto beija. Seguir algum padrão para o amor – ou o princípio dele - só leva a outro: o fracasso.

Por isso, se a vibe, o clima, o momento, ou tudo mais que confluir para dar a certeza que o melhor a fazer é fechar a conta e subir do elevador às nuvens, que aconteça. Sem dúvida é o melhor a ser feito.

No final, o importante é fazer o tal bolo chegar à mesa e ser sempre, a melhor das sobremesas.


happy23
por João Guilherme Pires

Na guerra, o homem esquece de si. Retorna ao estado animal. Não há moral, não há humanidade, só o caos. O que acontece no campo de batalha, não morre no campo de batalha. Fica na cabeça pelo resto da vida. Fazemos coisas que nunca imaginaríamos ser possível. Brutalidade. Irracionalidade. Perversidade.

Assim pensava João Manuel, enquanto olhava na mira de sua AR-15 à espreita do inimigo. Tiros vinham de todas as partes, ricocheteando nas estruturas que estavam à sua volta. A morte era iminente. Já havia perdido quase todos os companheiros. Acabara de ver o sargento Hills desintegrar-se na sua frente ao pisar em uma mina. Malditos nazistas. Ele precisava agir. E rápido. Ouviu o som da esquadrilha aérea se aproximando. Mas não sabia de qual lado era. Puta merda, resmungou. Num movimento ágil, quase instintivo, levantou da trincheira, apoiou-se nas barricadas, passou pelo arame farpado e pressionou com toda força o gatilho. Atirava a esmo. Não demorou para ser atingido: primeiro na perna, depois no braço. Daí veio o de misericórdia, no pescoço. Ainda sentia o sangue quente escorrendo pelo corpo quando, subitamente, acordou.

Estava em casa. No sofá. E precisou apenas de alguns segundos para entender tudo: na televisão passava Rambo III, com todas as explosões, tiros e gritos que estão no pacote. Aliviado, voltou a dormir.

Alguns dias depois e João Manuel estava na praia. Ubatuba. Adorava ir pra lá com a família e os amigos. Ainda mais quando fazia um solzão daqueles. Observava na areia a mulherada de biquíni, bumbum pra cima, marquinhas. Resolveu entrar no mar, pra aliviar. Correu e mergulhou fundo. A sensação foi revigorante. Nada melhor do que ficar boiando e pensar na vida, disse em voz alta. E assim ficou, tranquilamente. Pelo menos até sentir uma dor lancinante no braço direito e ser arrastado para o fundo. Abriu o olho, desesperado, e tudo o que via era sangue. Tentava nadar em direção à claridade que julgava ser a superfície, mas era extremamente difícil. Batia as pernas em ritmo alucinado e finalmente colocou a cabeça pra fora d´água. Conseguiu ver a barbatana cinza se aproximando novamente. Desesperado, começou a dar braçadas na direção contrária. Foi quando percebeu: perdera seu braço direito. Ao ver as vísceras, o osso e o sangue, sentiu um nó na garganta. Era o fim. Nessa altura a criatura já estava de boca aberta e João Manuel constatou que, com tantos, enormes e afiados dentes, seria cortado tranquilamente no meio. Gritou e, em um instante, acordou.

Estava em casa. Na cama. Chovia muito lá fora e, curiosamente, aquilo produzia som semelhante ao que ouvia em alto mar. Pior: adormecera em cima de seu braço, que agora não sentia nem movia. Achou graça e, depois de alguns movimentos para ativar a circulação, dormiu novamente.

Passaram mais alguns dias e João Manuel resolveu ir ao clube. Estava de férias, há tempos não ia. Foi na piscina, tomou sol, bebeu algumas cervejas e, no fim da tarde, decidiu pegar uma sauna. Estava vazia, o que era um milagre. À vontade, deitou e se deixou pegar no sono. Acordou com a porta de madeira se abrindo. Era Sandrinha, amiga de infância. Haviam se conhecido no clube e, de uns anos pra cá, ela tinha se tornado uma tremenda gostosa. Que bunda, que peitos. É claro que ela nem imaginava. Poderia estragar a amizade. Por isso João Manuel preferia nutrir sua paixão em segredo. Levantou apenas a cabeça e cumprimentou normalmente: oi Sandrinha, tudo bem? Estranhou o fato dela não dizer nada. E mais ainda de beijar sua boca. Como assim, tão de repente? Tentou articular uma frase mas não conseguiu. Ela agora beijava seu peito nu. Seu umbigo. E logo, bem, você pode imaginar. João Manuel teve a sunga retirada com delicadeza. E seu membro sugando da mesma forma. Suave e demoradamente. De olhos fechados, era difícil acreditar no que estava acontecendo. Por isso fez questão de, na maioria do tempo, mantê-los bem abertos. A cabeça subia e descia, olhos nos olhos. A língua quente passeava por toda a extensão do seu órgão, levando-o ao delírio. O ritmo foi acelerando. A profundidade aumentando. Veio então o gozo, farto e intenso. E na seqüência, como há de ser, o sono.

Acordou confuso em sua cama. A manhã já estava no ápice e fazia calor no quarto. Ainda estava se espreguiçando quando sua mãe abriu a porta e, com um sorriso no rosto, perguntou o que ele queria para o café. Estremeceu ao lembrar: estavam sozinhos em casa.


condo2
por João Guilherme Pires

“Olha, a policia me perguntou e eu já disse: pra mim não tinha nada de estranho nos dois não. Eram simpáticos, discretos. De fim de semana, quando fazia sol, estavam sempre na piscina. Não dá pra entender como isso foi acontecer. Fiquei chocada. A Lurdes, do 47, disse que ainda ouviu o barulho do corpo dela lá embaixo. Deus me livre. Vai acabar tendo pesadelo.”

Alzira Mendes, apto. 102, dona de casa.

“Eu tava treinando uns arremessos na quadra, lá atrás, quando ouvi o som do corpo. Sou federado no juvenil do Tietê e depois de amanhã tenho jogo. Então nem dei bola. Mas quando ouvi os gritos, fui pro pátio e vi Dona Marisa, quer dizer, o corpo, todo torto. Fui ver de perto. Não tenho problema com isso não, quero ser médico quando crescer. Cirurgião. Meu tio é e ganha a maior grana. Então, foi aí que eu reparei: ela segurava uma calcinha na mão.”

Omar Minello Malinovski, apto 74, estudante.

“Pessoal andava comentando por aí que ele traía ela. Que tinha amante. Mas ninguém tinha certeza. Ele sempre passava em casa na hora do almoço. Não dá pra saber. Mas que saía sempre de cabelo molhado, saía. Mas pode ser o calor, ué. Uma ducha faz bem pra renovar as idéias, trabalhar melhor. Tira o sono de tarde. Se pudesse eu fazia o mesmo.”

Honório Fonseca Jr. apto 132, consultor de vendas.

“Que desgraça, Pai do céu. Imagina: se jogar assim, sem mais nem menos. Ontem mesmo ainda perguntei: Marisa, tá tudo bem? Sabe quando você acha a pessoa meio esquisita, meio distante. Mas ela falou que sim, era só uma dor de cabeça. Servi um chá de camomila que dizem que acalma. Combinamos até de ir na feira hoje, pra você ver.”

Cláudia Serqueira Alencar, apto 28, aposentada.

“A Neide, que faz a faxina aqui de casa, começou essa semana também lá no 41, onde a Marisa morava. A antiga faxineira pediu as contas e eu indiquei a Neide, que é super confiável, trabalha bem. Aí quarta, ou terça, não sei, ela me disse que encontrou uma calcinha no bolso do paletó do Doutor Nelson. Na maior inocência, contou pra Dona Marisa e perguntou se era pra lavar, deixava lá, o que fazia. Nem pensou duas vezes: cada um com a sua maluquice né. Pois quando Dona Marisa viu e reconheceu, ficou louca.”

Cristina Freire Oliva, apto 121, secretária

“Foi horrível. Parecia um, sei lá, um bloco de concreto, madeira. Um barulho abafado, alto. Corri pra janela e vi. Chamei logo a policia. Nem tive coragem de olhar de novo. Tadinha. Ninguém merece. Você sabe né? Ela foi traída pelo primeiro marido. Armando, Arnaldo, não lembro. A filha é desse casamento. Regula uns 17 anos, por aí. Linda, a garota. Ela e o padrasto se dão muito bem. Devem estar arrasados.”

Lurdes da Silva Penteado, apto 17, costureira.

“Um dia ele me falou que estava passando por uns problemas aí, mas não entrou em detalhes. Mas tava na cara que tinha mulher no meio. Homem, quando tem problema com mulher, fica com um ar estranho. Sempre meio avoado, meio besta. Só não imaginava que era isso. O pessoal vai ficar chocado quando souber dos dois.”

Lucas Conde Filho, apto 26, advogado.

“Foi tudo muito rápido. Até agora não sei direito o que aconteceu. Fico com pena da Camila, filha dela. Namoramos uns 9 meses. A Dona Marisa sempre foi muito legal comigo. Eu tava chegando no prédio e parecia que tinha acabado de acontecer. Passei pelo jardim e vi o Omar gritando, me chamando. Fui lá e vi o corpo. Caraça, nunca vou esquecer. E o Omar que me chamou atenção pra calcinha. Nem falei nada, mas era da Camila. Ela ficava um tesão quando vestia.”

Bruno Souto Vieira, apto 98, estagiário de jornalismo.



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