Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

senha2
por Bruno Brandão

Leninha nunca escondeu de ninguém, principalmente de seus dois filhos e marido. E, precavida como sempre foi, repetia toda vez que achasse necessário:

- Meninos, se precisarem de alguma coisa, todas as minhas senhas sempre serão as mesmas: Tadeu77.

Religiosamente, a mulher terminava de alertá-los e roubava um beijo no rosto de seu esposo Tadeu, com quem se casou no dezembro de 1977.

Realmente, a senha foi útil por algumas vezes. Desde os momentos em que os meninos precisaram sacar algum dinheiro num carnaval um pouco mais exagerado até naqueles dias em que, com um computador quebrado, eles precisam aliviar a tensão numa punhetinha inadiável e inevitável no notebook da mãe.

Mas o fato não passou despercebido e trouxe chateações para a família, especialmente para o atencioso marido. Numa tarde de sábado, Leninha precisava acessar seu webmail do trabalho e mandar aquele relatório que ficou atrasado na última sexta-feira de escritório.

Por azar dela e de Tadeu, o computador de Leninha estava naqueles dias e a moça evitava, a qualquer custo, acessar o dos meninos.

- Sabe como é que são estes rapazes. Ligo o computador e dou de cara com uma loira siliconada de quatro no papel de parede.

Dessa forma, o último e preferido caminho era o PC moribundo do homem da sua vida. Leninha foi até o escritório ao lado da escada e ligou o computador já ansiosa pela tela de senha. Quando ela apareceu a eterna apaixonada não pensou meia vez:

Leninha77.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara de susto.

Tomatinha77. O apelido da época de namoro.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara fechada e de susto.

Leninhaamoreterno.
Senha incorreta. Tente outra vez. Cara fechada, de susto e desapontamento.

Ela já se mostrava impaciente e por que não, um pouco decepcionada. Fez, imediatamente, as mais variadas e óbvias tentativas:

Caribe. A viagem de lua de mel.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Paixaoafricana. O primeiro motel.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Fusca68. O carro em que se beijaram.
Senha incorreta. Tente outra vez.

Leopardoemoverdose. A posição preferida.
Senha incorreta. Tenta outra vez.

Leninha já chorava. Tratava-se de algo simples e pequeno é verdade, que não necessitava de tanto alarde. Mas para a mulher, era a prova de amor que faltava do marido, a cereja no bolo da paixão eterna, a demonstração mais leviana e importante do carinho de Tadeu.

E tudo foi por água abaixo quando, já desesperada, ela digitou:

Lontra. O nome do vira-lata da família.
O Windows abriu.

Leninha empurrou o teclado, desligou o monitor e desabou sobre a mesa.
O motivo do choro descontrolado era Lontra, o cachorro que se coçava 23 horas por dia, que destruía os seus sapatos e desfiava suas meias. Ele estava lá: a substituindo num cantinho especial das memórias do ex-homem da sua vida.

A desapontada mulher saiu do escritório e subiu as escadas num choro que de tão forte, era contagiante. Chamou a atenção dos filhos e abriu a porta do quarto: a cena do crime era inacreditável.

Lontra jazia sobre a cama, com pedaços de papel higiênico na boca e Tadeu, de conchinha, cobria o cachorro com um carinho delicado e ao mesmo tempo insinuante. Ela gritou e acordou os dois: o cão e o marido, ambos com cara de susto perguntaram o que tinha acontecido. Ele, pela fala e o mascote da casa, com uma coçada atrás da orelha e os olhos fixos em sua dona.

- Tadeu, tire esse cachorro da minha cama.
- Mas ele sempre subiu aqui.
- A partir de hoje, ou ele ou eu.
- Amor, por que isso?
- Ou ele ou eu Tadeu.

E assim se fez. O relacionamento entre marido e mulher ficou insustentável após a descoberta da senha indesejada e por conta disso, Lontra foi morar com Luquinhas, filho mais velho do casal que acabara de passar em engenharia numa faculdade do interior.

Tadeu nunca soube a razão da ira da mulher e desconhece a origem do ódio repentino de Leninha pelo cachorro tão querido por todos na casa. Mas a separação do casal só foi adiada.

Num sábado, no notebook do marido, a hoje solteira Leninha descobriu que todas as viagens de Tadeu a trabalho eram grandiosas mentiras.

Numa pasta escondida entre os arquivos técnicos do Windows, encontrou fotos de churrascos intermináveis. Intermináveis e incompreensíveis, já que Lontra e o seu ex-marido se divertiam ao lado de Luquinhas e seus amigos de faculdade na república do filho no interior.

E não foi surpresa para Leninha que, após o divórcio, Lontra voltou a morar em São Paulo e passou a ocupar o lugar na cama que antes era só dela.



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