Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

happy23
por João Guilherme Pires

Na guerra, o homem esquece de si. Retorna ao estado animal. Não há moral, não há humanidade, só o caos. O que acontece no campo de batalha, não morre no campo de batalha. Fica na cabeça pelo resto da vida. Fazemos coisas que nunca imaginaríamos ser possível. Brutalidade. Irracionalidade. Perversidade.

Assim pensava João Manuel, enquanto olhava na mira de sua AR-15 à espreita do inimigo. Tiros vinham de todas as partes, ricocheteando nas estruturas que estavam à sua volta. A morte era iminente. Já havia perdido quase todos os companheiros. Acabara de ver o sargento Hills desintegrar-se na sua frente ao pisar em uma mina. Malditos nazistas. Ele precisava agir. E rápido. Ouviu o som da esquadrilha aérea se aproximando. Mas não sabia de qual lado era. Puta merda, resmungou. Num movimento ágil, quase instintivo, levantou da trincheira, apoiou-se nas barricadas, passou pelo arame farpado e pressionou com toda força o gatilho. Atirava a esmo. Não demorou para ser atingido: primeiro na perna, depois no braço. Daí veio o de misericórdia, no pescoço. Ainda sentia o sangue quente escorrendo pelo corpo quando, subitamente, acordou.

Estava em casa. No sofá. E precisou apenas de alguns segundos para entender tudo: na televisão passava Rambo III, com todas as explosões, tiros e gritos que estão no pacote. Aliviado, voltou a dormir.

Alguns dias depois e João Manuel estava na praia. Ubatuba. Adorava ir pra lá com a família e os amigos. Ainda mais quando fazia um solzão daqueles. Observava na areia a mulherada de biquíni, bumbum pra cima, marquinhas. Resolveu entrar no mar, pra aliviar. Correu e mergulhou fundo. A sensação foi revigorante. Nada melhor do que ficar boiando e pensar na vida, disse em voz alta. E assim ficou, tranquilamente. Pelo menos até sentir uma dor lancinante no braço direito e ser arrastado para o fundo. Abriu o olho, desesperado, e tudo o que via era sangue. Tentava nadar em direção à claridade que julgava ser a superfície, mas era extremamente difícil. Batia as pernas em ritmo alucinado e finalmente colocou a cabeça pra fora d´água. Conseguiu ver a barbatana cinza se aproximando novamente. Desesperado, começou a dar braçadas na direção contrária. Foi quando percebeu: perdera seu braço direito. Ao ver as vísceras, o osso e o sangue, sentiu um nó na garganta. Era o fim. Nessa altura a criatura já estava de boca aberta e João Manuel constatou que, com tantos, enormes e afiados dentes, seria cortado tranquilamente no meio. Gritou e, em um instante, acordou.

Estava em casa. Na cama. Chovia muito lá fora e, curiosamente, aquilo produzia som semelhante ao que ouvia em alto mar. Pior: adormecera em cima de seu braço, que agora não sentia nem movia. Achou graça e, depois de alguns movimentos para ativar a circulação, dormiu novamente.

Passaram mais alguns dias e João Manuel resolveu ir ao clube. Estava de férias, há tempos não ia. Foi na piscina, tomou sol, bebeu algumas cervejas e, no fim da tarde, decidiu pegar uma sauna. Estava vazia, o que era um milagre. À vontade, deitou e se deixou pegar no sono. Acordou com a porta de madeira se abrindo. Era Sandrinha, amiga de infância. Haviam se conhecido no clube e, de uns anos pra cá, ela tinha se tornado uma tremenda gostosa. Que bunda, que peitos. É claro que ela nem imaginava. Poderia estragar a amizade. Por isso João Manuel preferia nutrir sua paixão em segredo. Levantou apenas a cabeça e cumprimentou normalmente: oi Sandrinha, tudo bem? Estranhou o fato dela não dizer nada. E mais ainda de beijar sua boca. Como assim, tão de repente? Tentou articular uma frase mas não conseguiu. Ela agora beijava seu peito nu. Seu umbigo. E logo, bem, você pode imaginar. João Manuel teve a sunga retirada com delicadeza. E seu membro sugando da mesma forma. Suave e demoradamente. De olhos fechados, era difícil acreditar no que estava acontecendo. Por isso fez questão de, na maioria do tempo, mantê-los bem abertos. A cabeça subia e descia, olhos nos olhos. A língua quente passeava por toda a extensão do seu órgão, levando-o ao delírio. O ritmo foi acelerando. A profundidade aumentando. Veio então o gozo, farto e intenso. E na seqüência, como há de ser, o sono.

Acordou confuso em sua cama. A manhã já estava no ápice e fazia calor no quarto. Ainda estava se espreguiçando quando sua mãe abriu a porta e, com um sorriso no rosto, perguntou o que ele queria para o café. Estremeceu ao lembrar: estavam sozinhos em casa.


Eine Antwort

  1. Victor says:

    Haha, bom conto, João. Bem divertido, gostoso de ler.

    Uma coisa: rola um lance meio édipo no finalzinho, ou é impressão minha? Achei meio estranha a constatação final dele.

    Abraço!

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