Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

jaotm
por João Vicente

Os assuntos se encontram nesta coluna. Na semana passada escrevi a respeito da cidade onde vivo e cunhei o texto de “São, São Paulo, meu amor”, refrão de uma conhecida música de Tom Zé. Coincidentemente, tive a oportunidade de presenciar uma palestra do artista no começo desta semana. Além das falas esperadas em uma palestra, o evento também consistiu em um pocket show do músico.

Sob aplausos, antes de qualquer palavra, Tom Zé deu início ao episódio com a canção “Politicar”, que tem como versos, por exemplo, “Meta sua usura / Na multinacional / Vá tomar na virgem / Seu filho da cruz. / Meta sua moral / Regras e regulamentos / Escritórios e gravatas / Sua sessão solene”. Daí em diante, o artista mesclou suas canções a contextualizações do que foi apresentado para, em seguida, falar a respeito da “idéia”.

Em suma, Tom Zé procurou passar suas considerações a respeito da importância de cada um de nós preservarmos nossas próprias idéias e não deixarmos que estas se percam em meio a nossos pensamentos. Disse o músico que as idéias são leves, não vêm com grandes formalidades e é necessário darmos atenção a elas. É necessário que se fique sozinho e se trabalhe na idéia, sem interferências externas, para que ela possa florescer. E mencionou uma de suas canções como um exemplo de como esta prática – de trabalhar idéias – funciona. Afinal, disse Tom Zé, foi a atenção a uma singela idéia de riff de violão e conseqüentes arranjos que deu origem a uma das canções que compôs para o álbum responsável por sua explosão nos EUA.

Para quem desconhece a história, conforme o próprio conta, Tom Zé estava disposto a abandonar sua carreira musical – que não lhe dava grandes retornos financeiros e midiáticos – para trabalhar como frentista em um posto de gasolina. No entanto, por um golpe do acaso, David Byrne, então integrante da banda Talking Heads, encontrou o disco “Estudando o Samba” de Tom Zé e, encantado, decidiu lançá-lo por meio de seu selo. Daí para frente a carreira internacional de Tom Zé deslanchou, o que acabou por se refletir no Brasil.

De volta a palestra, a exposição do músico a respeito da importância da preservação das idéias foi interrompida, porém, pelo semblante de grande parte da platéia. Tom Zé deteve sua fala em diversos momentos com comentários sobre o sono e o desinteresse que seu público lhe oferecia até, enfim, terminar quase bruscamente sua apresentação com uma última canção. Se o relato da palestra, até então, pareceu interessante para você, provavelmente também se surpreendeu com a reação da platéia, tal como eu.

Logo, comecei a questionar qual a razão que levou ao acontecimento que presenciei. Por que, enfim, diante de algo tão facilmente cativante, o público parecia inerte? E prontamente me veio a consideração de que os interesses são intrínsecos, próprios a cada um. Não há dúvida de que ninguém é obrigado a ter os mesmos interesses que outra pessoa. Em um planeta impregnado de consumo e imagens fáceis de televisão, qualquer tentativa cultural é, no mínimo, digna de asco. Contudo, diante de uma palestra, não seria minimamente respeitoso ouvir o que esta pessoa tem a dizer? Se um indivíduo se prontifica a participar de um evento, e não gostou do que viu, não deveria simplesmente se retirar?

Entretanto, me lembrei em seguida de meus anos no colégio. Diante do que não agradava aos alunos, certamente, estes não se retiravam, mas sim, dormiam, a despeito do que isso poderia significar para quem quer que fosse – eu incluso. E, se isto não acontece agora, é meramente porque sei que, naquele lugar, poderia ser eu. E sei que todo ser humano é digno de respeito, independentemente do que diga. Com variações, não atribuem a Voltaire a frase que diz: “Posso não concordar com uma só palavra que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-la”?

Mas é fato que, no colégio, tal como no cenário que presenciei, não se sabe disso verdadeiramente. As palavras a respeito podem até estar lá, porém, creio eu, são dificilmente assimiladas. Sei que a origem é outra, mas como escreveu Jimmy Cliff: “Perdoai-lhes, Senhor, eles não sabem o que fazem”.


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guitar2
por Bruno Brandão

Tato é a prova que o Guitar Hero pode formar novos roqueiros. Desde o natal que ele “se deu” de presente o jogo, Tato nunca mais quis saber de outro estilo de música.

Tudo que ele consumia era relacionado aos mais rebeldes e famosos roqueiros. E olha que o Tato era micareteiro de primeira linha. Ele passou a comprar de tudo: dvd’s, biografias, tatuagens, cd’s, roupas e mulheres.

Isso mesmo. Mulheres. Desde que se afundou no mundo do Rock, Tato virou o maior namorado de puta de São Paulo. Depois de uma noite recheada de Guitar Hero, Tato se deliciava com suas moças.

E a cada noite, era uma fantasia diferente:

- Agora me chama de Rockstar.

- O quê?

- Me chama de Rockstar.

- Me ajuda agora a prender os móveis no teto.

- Eu preciso tirar a roupa?

- Depois de me ajudar sim.

- Fala que você deu pro meu segurança antes de chegar aqui!

- Que segurança?

- O meu segurança, fala que você também deu pro meu segurança!

E Tato começou a viver assim. Deixou o cabelo crescer, começou a beber diariamente, a usar drogas e o seu vício pelo Guitar Hero só aumentava.

Só usava roupa de couro, sabia de cor todas as marcas de laquê e praticava atrocidades nas pousadas que ele se hospedava em suas férias. Não era raro virmos cadeiras de praia sendo atiradas pela janela.

Tudo isso fruto do Guitar Hero.

Agora se você me perguntar se o Tato um dia se interessou em tocar guitarra de verdade, eu digo que não. Tato já tinha a sua vida de roqueiro.

E como ele sempre dizia:

- Tocar guitarra de verdade? Não, não, isso é trabalhoso demais.


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