
por João Guilherme Pires
Falhei, meus caros (e poucos) leitores. Se alguém pintou por aqui na sexta-feira passada procurando algum punhado de letras digitadas ordenadamente que compusessem algum sentido, bem, nada encontrou.
Minhas sinceras desculpas. É culpa da firma. Ok, talvez não tanto assim. Quem sabe com mais planejamento, menos cervejas, mais disciplina, menos YouTube, mais criatividade, menos YouTube, eu teria cumprido minha obrigação.
O caso é que pareceu não dar tempo. O que me fez, como pseudo-pseudo-filósofo que faço pose de ser, principalmente alcoolizado, questionar o tempo.
Barbudos já disseram que a história da humanidade é a história da luta de classes. Patrão e empregado. Opressores e oprimidos. Suzeranos e vassalos. Sei não. Desconfio que, na verdade, nossa história se resuma à História da Invenção de Meios para Ocupar Pessoas de Modo que Elas Não Pensem na Vida.
Olha só: quanto mais o homem entende o universo, suas leis físicas, cosmológicas e biológicas, mais coisas arranjam pra ele fazer!
Numa antiguidade essencialmente mística, nossos ancestrais se ocupavam em entender o mundo.
- Aí, que é essa parada branca lá em cima?
- Sinistro…só aparece quando fica tudo preto.
- Tá olhando pra gente. Fodeu.
- Sei lá, vamos matar uma galinha, talvez ela goste.
O resto do tempo? Caçavam, reproduziam-se, reproduziam-se, migravam, tinham membros dilacerados por grandes felinos. Mas o fato é que, procurando viver conforme as regras do mundo animal – alimentar, descansar, multiplicar, preservar – pouca base deviam ter a questionar o sentido de tudo isso. Se canalizavam medos e angústias para o que não conseguiam compreender, ao menos não tinha ninguém que os contradissesse.
Mas, como neguinho era curioso demais, resolveu querer entender os porquês. Péssima idéia: foi o início do caos. Aliás, acho que o tal pecado original deve ter sido esse na verdade.
- Deus, posso comer essa maçã?
- Não.
- Por quê?
BUUUUM.
Hoje, com a tal da ciência e as respostas pra tudo, me parece que fazem de tudo pra gente não pensar no sentido da coisa toda.
- Pai, o que acontece depois que a gente morre?
- Vai estudar filho! Amanhã você tem prova!
Escola. Um conjunto de conhecimentos que alguém julgou conveniente todo mundo saber. Alguma coisa tem lá o seu valor mas, fala sério, qual foi a última vez que você usou um Logaritmo Neperiano? É tudo pra fazer você se ocupar até ter 18 anos e poder se embriagar.
E a embriaguez, como se sabe, é um ótimo meio de passar o tempo sem se preocupar com nada.
Desculpe, mas não é só isso. O texto está longo, eu sei. Pode ir beber uma água, vê se aquela gostosinha tá online no MSN. Pronto, voltou? Vamos lá.
Temos a faculdade ainda! Claro: é tanta gente no mundo que seria um perigo deixar essa turba sem um norte. Um objetivo a ser cumprido. Por isso inventaram uma série de profissões “essenciais” para o bom funcionamento da sociedade. Como a bibliotecária, o enólogo, o quiroprata, o publicitário. Assim cada um fica especializado em uma coisa bem específica, tem uma carreira para focar e não fica se questionando além da conta.
Mas não para por aí. Temos ainda o MBA, o mestrado, o pós-doutorado. Anos e anos aplicados à questões nem sempre relevantes. Leia. Aprenda. Escreva. Assista. Sublinhe. Ouça. Mas não, por favor, não pense no grande cerne da existência.
E, só para o caso de isso não ter ficado claro para alguém, resolveram ainda aperfeiçoar o entretenimento. Se antes a diversão consistia em sexo, hoje consiste em sexo pela Internet ou na sexualidade de 120 cm da Mulher Melancia. Se antes os greguinhos se reuniam com os gregões para ouvir os mitos e discutir filosofia, hoje tem o Faustão na TV. Vai ver por isso tem uma moçada ganhando tanto dinheiro com cinema e televisão. São eles os responsáveis por fazer bilhões de pessoas ficarem boas horas só curtindo uma inércia. Porque, para o sistema, ou Sistema, segundo os mais conspiratórios, quanto mais tempo na frente da TV melhor. Quanto mais tempo na frente do PC (ou Mac), melhor. Quanto mais tempo perdendo tempo em textos como este aqui, melhor.
E eu juro pra vocês que não recebi um centavo por isso.
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