Outro dia um grande amigo, em um desses bons papos que acontecem na mesa do bar, comentou para mim a respeito de determinado artista que havia se vendido, pois gravou uma música-tema para uma propaganda de cachaça. O artista em questão é Seu Jorge, que criou a canção “Eterna Busca”, até onde sei, para a Sagatiba. Com todo o respeito à perspectiva de meu companheiro, a conversa deu frutos interessantes e achei válido retratar um pouco do diálogo aqui.
Para começar, é de praxe a crítica a quem “se vende à máquina capitalista” porque estrelou alguma propaganda, usou marcas em troca de patrocínio ou, em casos mais extremos, como o de Seu Jorge, criou uma canção exclusivamente para uma marca. Na opinião destes críticos, haveria algo que mais macularia a arte em seu estado puro senão a criação em prol da mera venda de algum produto? Há casos clássicos de diferenças ideológicas a respeito destas questões, como a briga de Jello Biafra com sua ex-banda, o Dead Kennedys, em virtude da refutação do vocalista em permitir que uma música da banda fosse utilizada em um comercial da grife Levi’s. Para quem não está familiarizado, o Dead Kennedys foi uma renomada banda da cena do punk rock californiano dos anos 80, com letras politizadas que caminhavam da sátira à anarquia.
Acredito que exista validade no argumento, pois entendo a perspectiva de que não seria interessante vincular a posição de protesto da banda a uma marca mundial de roupas. No entanto, me pergunto se esta vinculação significaria, necessariamente, uma contradição ideológica à postura da banda. Em outras palavras, questiono se a vinculação de uma banda a uma marca ou até mesmo a criação com fins direcionados a venda de um produto são essencialmente uma afronta à pureza artística.
Cito, por exemplo, o caso recente de Mallu Magalhães. Em uma entrevista a um programa de televisão, a compositora citou a ampliação das possibilidades de produção de um artista por meio do atrelamento de marcas e produtos ao trabalho desenvolvido, em detrimento do contrato com gravadoras. Ou seja, na opinião de Mallu, existe, hoje, a possibilidade de distanciamento do esquema industrial engessado das grandes gravadoras. Como se sabe, o novo expoente da música brasileira associou suas canções a marcas como Vivo e a mencionada Levi’s. Na perspectiva deste que vos escreve, este novo modelo de mecenato abre a possibilidade para que um trabalho artístico verdadeiramente independente seja desenvolvido, pois permite com que o artista decida os rumos de suas criações, longe da vontade dos figurões das grandes gravadoras.
Além disso, vale lembrar que grandes obras da humanidade foram possíveis somente mediante a adoção do regime de mecenato. Por exemplo, a Capela Cistina de Michelângelo foi comissionada por mecenas, além de obras de Leonardo da Vinci, Shakespeare e Camões. Seria possível diminuir os feitos destes artistas, de alguma maneira, pelo mero fato de terem sido encomendadas por reis ou figuras que o valham?
Certamente, se vender para uma gravadora, que induz o artista a criar algo que não corresponde a sua genuína vontade, pode ser algo que corrompe a pureza da arte. Mas utilizar os recursos da alguma empresa para poder bancar suas criações me parece algo plenamente sensato, embora, em um primeiro olhar, pareça ser a “venda” de um artista. Não há dúvida de que no episódio de Seu Jorge a empresa mecenas teve impacto direto na criação. Porém, mesmo neste caso, não sei se o fato da canção ter sido encomendada constitui-se em um demérito para sua qualidade, enfim, musical. Além disso, não cabe a mim julgar se o resto das canções de Seu Jorge são comerciais ou não, mas, sem sombra de dúvida, o patrocínio da marca mencionada abre a possibilidade para que este compositor faça o que bem entender com todo seu trabalho remanescente. Seria como abrir mão de um pouco para poder ganhar muito mais depois. Acredito ser razoável admitir que os Los Hermanos só conseguiram bancar sua arte fortemente autoral após a explosão do hit “Anna Julia”. Assim como Roberta Sá deu as caras na indústria musical por meio do programa de televisão “Fama”, e hoje em dia desponta com uma MPB bem longe da mesmice midiática.
Em uma sabatina do programa Inside the Actor’s Studio, o diretor Francis Ford Coppola foi perguntado se para mudar o mundo era necessário seguir o rio para, depois, tomar a direção contrária. Coppola afirmou: “A resposta é provavelmente ‘sim’, é um equilíbrio delicado e você deve tentar acompanhar. Acompanhar o suficiente para ganhar experiência e algum grau de poder. Porém, você deve tentar então, talvez, manter-se verdadeiro ao que te inspirou em primeiro lugar, para que, uma vez com este poder, possa utilizá-lo de maneiras que nos ajudarão a caminhar em direção a um novo mundo que gostaríamos de construir”. E acaba sua intervenção com um chamado: “Saiam e mudem o mundo com arte!”. Consoante aos ditos de Coppola, creio que o trilhar de qualquer caminho contrário ao senso comum tem como boa companhia a paciência e o equilíbrio.
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