Muito Horrorshow!
Cinco jovens juntam palavras e relatam momentos de nossas vidas que são assim: Muito Horrorshow!

mecenato
por João Vicente

Outro dia um grande amigo, em um desses bons papos que acontecem na mesa do bar, comentou para mim a respeito de determinado artista que havia se vendido, pois gravou uma música-tema para uma propaganda de cachaça. O artista em questão é Seu Jorge, que criou a canção “Eterna Busca”, até onde sei, para a Sagatiba. Com todo o respeito à perspectiva de meu companheiro, a conversa deu frutos interessantes e achei válido retratar um pouco do diálogo aqui.

Para começar, é de praxe a crítica a quem “se vende à máquina capitalista” porque estrelou alguma propaganda, usou marcas em troca de patrocínio ou, em casos mais extremos, como o de Seu Jorge, criou uma canção exclusivamente para uma marca. Na opinião destes críticos, haveria algo que mais macularia a arte em seu estado puro senão a criação em prol da mera venda de algum produto? Há casos clássicos de diferenças ideológicas a respeito destas questões, como a briga de Jello Biafra com sua ex-banda, o Dead Kennedys, em virtude da refutação do vocalista em permitir que uma música da banda fosse utilizada em um comercial da grife Levi’s. Para quem não está familiarizado, o Dead Kennedys foi uma renomada banda da cena do punk rock californiano dos anos 80, com letras politizadas que caminhavam da sátira à anarquia.

Acredito que exista validade no argumento, pois entendo a perspectiva de que não seria interessante vincular a posição de protesto da banda a uma marca mundial de roupas. No entanto, me pergunto se esta vinculação significaria, necessariamente, uma contradição ideológica à postura da banda. Em outras palavras, questiono se a vinculação de uma banda a uma marca ou até mesmo a criação com fins direcionados a venda de um produto são essencialmente uma afronta à pureza artística.

Cito, por exemplo, o caso recente de Mallu Magalhães. Em uma entrevista a um programa de televisão, a compositora citou a ampliação das possibilidades de produção de um artista por meio do atrelamento de marcas e produtos ao trabalho desenvolvido, em detrimento do contrato com gravadoras. Ou seja, na opinião de Mallu, existe, hoje, a possibilidade de distanciamento do esquema industrial engessado das grandes gravadoras. Como se sabe, o novo expoente da música brasileira associou suas canções a marcas como Vivo e a mencionada Levi’s. Na perspectiva deste que vos escreve, este novo modelo de mecenato abre a possibilidade para que um trabalho artístico verdadeiramente independente seja desenvolvido, pois permite com que o artista decida os rumos de suas criações, longe da vontade dos figurões das grandes gravadoras.

Além disso, vale lembrar que grandes obras da humanidade foram possíveis somente mediante a adoção do regime de mecenato. Por exemplo, a Capela Cistina de Michelângelo foi comissionada por mecenas, além de obras de Leonardo da Vinci, Shakespeare e Camões. Seria possível diminuir os feitos destes artistas, de alguma maneira, pelo mero fato de terem sido encomendadas por reis ou figuras que o valham?

Certamente, se vender para uma gravadora, que induz o artista a criar algo que não corresponde a sua genuína vontade, pode ser algo que corrompe a pureza da arte. Mas utilizar os recursos da alguma empresa para poder bancar suas criações me parece algo plenamente sensato, embora, em um primeiro olhar, pareça ser a “venda” de um artista. Não há dúvida de que no episódio de Seu Jorge a empresa mecenas teve impacto direto na criação. Porém, mesmo neste caso, não sei se o fato da canção ter sido encomendada constitui-se em um demérito para sua qualidade, enfim, musical. Além disso, não cabe a mim julgar se o resto das canções de Seu Jorge são comerciais ou não, mas, sem sombra de dúvida, o patrocínio da marca mencionada abre a possibilidade para que este compositor faça o que bem entender com todo seu trabalho remanescente. Seria como abrir mão de um pouco para poder ganhar muito mais depois. Acredito ser razoável admitir que os Los Hermanos só conseguiram bancar sua arte fortemente autoral após a explosão do hit “Anna Julia”. Assim como Roberta Sá deu as caras na indústria musical por meio do programa de televisão “Fama”, e hoje em dia desponta com uma MPB bem longe da mesmice midiática.

Em uma sabatina do programa Inside the Actor’s Studio, o diretor Francis Ford Coppola foi perguntado se para mudar o mundo era necessário seguir o rio para, depois, tomar a direção contrária. Coppola afirmou: “A resposta é provavelmente ‘sim’, é um equilíbrio delicado e você deve tentar acompanhar. Acompanhar o suficiente para ganhar experiência e algum grau de poder. Porém, você deve tentar então, talvez, manter-se verdadeiro ao que te inspirou em primeiro lugar, para que, uma vez com este poder, possa utilizá-lo de maneiras que nos ajudarão a caminhar em direção a um novo mundo que gostaríamos de construir”. E acaba sua intervenção com um chamado: “Saiam e mudem o mundo com arte!”. Consoante aos ditos de Coppola, creio que o trilhar de qualquer caminho contrário ao senso comum tem como boa companhia a paciência e o equilíbrio.


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por Bruno Brandão

Tato é a prova que o Guitar Hero pode formar novos roqueiros. Desde o natal que ele “se deu” de presente o jogo, Tato nunca mais quis saber de outro estilo de música.

Tudo que ele consumia era relacionado aos mais rebeldes e famosos roqueiros. E olha que o Tato era micareteiro de primeira linha. Ele passou a comprar de tudo: dvd’s, biografias, tatuagens, cd’s, roupas e mulheres.

Isso mesmo. Mulheres. Desde que se afundou no mundo do Rock, Tato virou o maior namorado de puta de São Paulo. Depois de uma noite recheada de Guitar Hero, Tato se deliciava com suas moças.

E a cada noite, era uma fantasia diferente:

- Agora me chama de Rockstar.

- O quê?

- Me chama de Rockstar.

- Me ajuda agora a prender os móveis no teto.

- Eu preciso tirar a roupa?

- Depois de me ajudar sim.

- Fala que você deu pro meu segurança antes de chegar aqui!

- Que segurança?

- O meu segurança, fala que você também deu pro meu segurança!

E Tato começou a viver assim. Deixou o cabelo crescer, começou a beber diariamente, a usar drogas e o seu vício pelo Guitar Hero só aumentava.

Só usava roupa de couro, sabia de cor todas as marcas de laquê e praticava atrocidades nas pousadas que ele se hospedava em suas férias. Não era raro virmos cadeiras de praia sendo atiradas pela janela.

Tudo isso fruto do Guitar Hero.

Agora se você me perguntar se o Tato um dia se interessou em tocar guitarra de verdade, eu digo que não. Tato já tinha a sua vida de roqueiro.

E como ele sempre dizia:

- Tocar guitarra de verdade? Não, não, isso é trabalhoso demais.


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por Bruno Brandão

Paulão era um roqueiro dos bons. 1,92 de altura, 125 quilos, cabelos compridos, voz grossa, cavanhaque denso e um armário recheado de camisetas pretas, calças jeans rasgadas e uma coleção invejável de botinas de montanhistas. E por conta disso, o adolescente era alvo da maioria das polêmicas de sua família.

Sua avó, nunca se acostumou com a aparência do rapaz. Sua priminha de apenas 3 anos, não conseguia olhar para ele sem chorar e seu pai, desistiu de tentar encaixá-lo em um estágio dentro do seu escritório de advocacia, o JJ Associados.

Paulão também era adepto da cultura “Tudo que é bom faz mal”. Comia o osso da costela, bebia cerveja misturada com vodca e não abandonava por nada o seu cigarrinho de maconha matinal. Era um ogro daqueles de dar orgulho para seus amigos ogros, que nem de longe eram tão ogros como ele.

Mas tinha uma coisa que ninguém imaginava e que Paulão, em crises agudas de sofrimento, chegava até a chorar de desespero: sua música preferida, aquela que o fazia arrepiar, aquela que fazia ele parar o golzinho quadrado branco no acostamento para escutar no rádio era “Cai a Chuva”, cantada por Sandy & Júnior.

O Ambulância, amigo de Paulão, baixista da banda Sobreviventes do Aborto que ele montou com o nosso herói, nunca conseguiu entender a presença desse single da dupla pop no MP3 player do amigo. Perguntava todo santo dia:

- Porra Paulão, que merda é essa cara?
- O quê?
- Essa merda de Sandy & Júnior no seu negócio aqui.
- Porra, sei lá meu. Deve ter sido minha irmã que colocou.
- Vou deletar essa bosta.
- Não! Não! Quer dizer, vou perguntar pra Pat antes né. Sei lá, vai que ela queira escutar ainda. Não sei.
- Tu tá estranho hein Paulão, pega essa guitarra e vamo tocar.

E assim a vida seguia com Paulão continuando a ser o roqueiro que todo mundo conhecia. Seu pai, desistiu de encaminhá-lo na carreira de direito. Sua priminha, hoje com 15 anos, continua tendo arrepios com seu primo, que tem o cabelo ainda mais comprido. E sua banda, os Sobreviventes do Aborto, se tornou uma das mais famosas do circuito alternativo horrorshow de São Paulo.

E para alegria de todos, Paulão foi eleito pela Associação de Seguranças do Brasil, o melhor profissional de segurança do país.

Na última turnê da Sandy, já na carreira solo da cantora, Paulão evitou três seqüestros, expulsou mais de 167 fãs intrusos do camarim e num ato heróico, levou uma bala perdida no braço, ao proteger a frágil celebridade.

E o comentário na firma era sempre o mesmo:

- O Paulão? Sempre trabalha com um sorriso no rosto!

E este sorriso se tornava ainda maior no momento em que ele escutava no backstage os versos inconfundíveis:

“Cai a chuva e molha o meu amor;
Cai a chuva, vai molhar o meu amor”.


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Brasileiros e brasileiras, Michael Jackson, o Rei do Pop, morreu ontem aos 50 anos. Um dos maiores ícones da música mundial sofreu uma parada cardíaca e faleceu às 13h07 em Los Angeles (17h07 de Brasília).

O cantor preparava uma temporada de 50 shows em Londres em comemoração ao seu meio século de vida. A turnê iria se chamar “This is it” e seria a primeira desde 1996, época do lançamento de sua coletânea “HIStory”.

Michael certamente foi um dos mais talentosos artistas de todos os tempos e a sua importância para a música é sem dúvida comparável a ícones como Bealtes, Elvis Presley e James Brown. Ele transformou uma geração inteira e abriu as portas do mundo para a música Pop, gênero que para sempre vai tê-lo como rei absoluto.

Michael bebeu de diversas fontes: soul, funk, R&B e respirou ares até do Heavy Metal. Fez o disco mais vendido de todos os tempos (Thriller, de 1982) e transformou os seus clipes em verdadeiros curtas-metragens. Pelo lado musical, que modéstia parte posso falar com mais critério, Michael é imbatível. Uma espécie de deus da dança, dono de uma voz insuperável e detentor de um carisma que conseguia enlouquecer fãs ao redor do mundo mesmo com todas as bizarrices que circundaram sua vida a partir do final dos anos 80/início dos anos 90.

Minha geração e teimo a dizer que muito provavelmente as próximas também, nunca mais verão um artista tão completo como Michael Jackson. É um desses ícones que vem, vão e nunca mais voltam. Não há hit-maker que consiga transformar uma pista de dança como ele transformava. Don’t Stop ‘til You Get Enough e Smooth Criminal são exemplos disso.

Ritmo puro. Swing invejável. Refrões que são incapazes de se esquecer. Michael guarda em cada um de nós, uma sonoridade irresistível. Deixa um trabalho impecável que só alguém como ele poderia construir: desde os Jackson 5 até os seus últimos lampejos de genialidade nos anos 90.

Michael era um gênio. Digno da alcunha de rei. E daqueles governantes que recebem aprovações expressivas. Não se pode e nem conseguimos colocar defeitos naquilo que ele criou. Mestre.

E como forma de homenagem, durante toda a semana que vem, os textos aqui publicados trarão o Michael em suas histórias. E você, vai poder respirar os últimos suspiros do Rei do Pop. E também escutar: basta ouvir um Top10 dele que está no widget aí no sidebar do Muito Horrorshow.

Aproveite.

Um forte abraço,
Bruno Brandão.

Fique com um vídeo de uma versão de Smooth Criminal ao-vivo:


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