
por Bruno Brandão
Beneco nunca foi craque, mas também nunca foi um perna de pau reconhecido. Nos tempos de colégio, era fato que ele era um dos últimos a ser escolhido nas aulas de educação física, mas, jamais, era o jogador derradeiro a ser apontado para integrar uma equipe. Algumas vezes cumpria o seu papel, em outras, marcava o mais bonito dos gols contra nos inter-classes do Santo Arnaldinho, o colégio católico que Beneco estudou.
Em toda a sua carreira de boleiro amador, Beneco passou pelas mais diversas posições: goleiro, zagueiro, lateral, meio campo, líbero, velocista, torcedor, atacante, técnico, motivador e massagista. Brilhou um pouco (bem pouco) em cada uma delas e por falta de auxílio, não sabia o que falar:
- Você joga em que posição Beneco?
- Ah, qualquer uma.
E isso incomodava o jovem, porque o que ele mais gostava de falar era justamente disso: o esporte bretão, a peleja sagrada, o bate bola com malemolência, a pimba na gorduchinha, o futebol que sacia a vontade de diversão de qualquer brasileiro de estirpe. Beneco em seu dia a dia consumia tudo que envolvia futebol. Mas talvez por tanto gostar de bola, nunca soube chutá-la tão bem. E dizia sempre:
- Não posso maltratá-la, por isso pego leve.
Mas todo súdito, um dia vive, pelo menos, algumas horas de Rei. E Beneco, em mais uma de suas insistências no futebol, se inscreveu em um time que participava do Campeonato Interno do seu Clube, o Marajoara Athletic Club.
O Batalhão, nome da equipe, era o pior time do campeonato. Perdia partidas memoráveis por 5, 6, 7, 10 a zero, ou quando dava sorte, por 10 a 1. Figurava constantemente e orgulhosamente na última posição da tabela, que ficava bem fixada na entrada do Clube. Beneco não podia ter feito escolha mais feliz.
Mas em uma noite de maio, os ventos mudaram de direção.
O Batalhão, aos 5 do segundo tempo, já perdia por 4×1 do Titanic, segundo colocado do campeonato. Não restavam esperanças, o fôlego já havia se extinguido faziam eras e em uma última tentativa de reverter o resultado, Juca, o técnico, em voz baixa e desolada disse:
- Vai lá Beneco, entra nessa joça.
Beneco não falou nada, apenas levantou o meião, arrumou a caneleira, amarrou o calção, pôs a camisa pra dentro, alongou de forma bisonha e abraçou o companheiro que saía para dar lugar a ele. Em poucos cinco minutos lá estava o atleta postado em campo: elegante, passadas largas, cabeça erguida, porte que lembrava um Tostão misturado com Falcão, ou seja, a aparência perfeita de um craque.
Lembro que nessa época, Beneco jogava com a 21 e era reserva imediato dos atacantes do Batalhão e, rapidamente, por saber o seu objetivo da noite, se postou em frente à grande área em sua entrada no certame.
Poucos segundos depois em um escanteio, como se Deus levasse até lá, a bola veio parar no peito de Beneco. Do peito, para a coxa, da coxa para o pé e do pé…
Não leitor, o goleiro não pegou e tampouco a bola foi parar na quadra de Squash, a gordinha estufava a rede de forma graciosa e descansava no canto do gol, apoiada no gramado muito bem aparado. 4×2. O Batalhão diminuía a sua incomoda desvantagem.
Beneco recebeu tímidos cumprimentos, afinal seus companheiros conheciam as limitações do craque recém nascido e sabiam que tudo aquilo não passava de um lampejo de técnica. Mas eles estavam enganados.
A bola continuou a rolar e misteriosamente, rolava sempre a procura do desequilibrado jogador. Fernandinho, o lateral pançudo do Batalhão driblou desengonçadamente o zagueiro adversário e cruzou.
A bola vinha pelo alto e Beneco saltou. Ela descia e Beneco ainda no ar. Desceu mais um pouco e alcançou as longas madeixas do jogador. E de lá, elas foram parar no mesmo lugar em que estava há pouco tempo: na lateral bem no fundo do gol, repousada graciosamente no gramado bem cortado. 4×3. Mais um do Beneco.
Quando finalmente pousou em terra firme, o jovem não acreditava. Goleiro ao chão com a cara enfiada na grama, zagueiro com a mão na cabeça e Fernandinho, o pançudo, vindo correndo desesperadamente em sua direção. Golaço.
O Batalhão, inacreditavelmente, arrancava seus últimos suspiros de força nos pés do desacreditado Beneco. E a partir daí, o time começou a jogar o que nunca jogava em toda sua história. Defendia sua meta como uma Itália em Copa do Mundo e arrancava para frente como uma Holanda de 74.
E foi num desses contra-ataques que Rodésio, o meio campista de 1,58, dominou a bola e lançou Beneco. Domínio elástico no ar para colocar a bola no chão e, de frente para a grande área, um toque sutil entre as pernas do gigante zagueiro: lindo passe para Ulisses, o atacante veterano do time que num chute meio que sem querer, fuzilou o goleiro adversário que nada pôde fazer.
O Batalhão, numa noite histórica, empatava com o Titanic, time competitivo que ostentava cinco títulos do campeonato interno. 4×4.
Não havia tempo para muito mais coisa, o juiz, da mesma forma rápida que reiniciou a partida, a encerrou. O Batalhão conquistava o seu primeiro ponto em dois anos de vida e Beneco marcava o seu nome nos anais da equipe amadora.
O vestiário foi uma festa só. Todos agradeciam o garoto pela alegria daquele jogo, um por um, em fila, agradeciam Beneco pela noite inesquecível. Uma noite que jamais seria esquecida. Tanto para aqueles jogadores quanto para o jovem. A cerveja pós-jogo foi toda paga pelo Patrono do time, o Seu Cardoso que no brinde, saudou:
- Obrigado Beneco, por trazer alegria a todos nós. Um brinde!
O Batalhão terminou aquele campeonato em último com apenas um ponto conquistado e, por conta da desistência de seus jogadores, a equipe decretou falência naquele mesmo ano, para nunca mais se reunir novamente. Beneco também nunca mais voltou a ser o que foi naquela noite. Mas depois disso, não mais se incomodava com a ausência de técnica que lhe faltava da cintura pra baixo. Porque ao menos em um dia, ele tinha sido o maior jogador da Terra, o maior de todos, daqueles que recebem nota 9,0 do Lance!
E até hoje ele comenta quando vê algum profissional realizar grandes feitos em campeonatos por aí:
- Isso eu já fiz. Isso eu já fiz. E melhor.
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